O firmamento de Barcelona foi iluminado, na noite do dia 10 de Junho, por uma frase, simples, em catalão: “Primer l’amore, després la técnica”. Ao lado da Basílica da Sagrada Família, um conjunto de drones desenhava no céu, além da afirmação, o rosto sorridente do autor, Antoni Gaudí. É dele essa observação famosa, recordada na quarta-feira: “Para fazer as coisas bem é necessário: primeiro, o amor; depois, a técnica”.
Com a evocação do arquitecto e da sua máxima, ficava concluído o programa da visita de Leão XIV a Barcelona. Antes, o Papa tinha celebrado missa na Sagrada Família e benzido a torre de Jesus, acabada de construir no dia 20 de Fevereiro. É ela que coroa a basílica, tornando-a, como os meios de comunicação social têm abundantemente repetido, o templo mais alto do planeta.
A bênção da torre de Jesus no dia em que se assinalou o centenário da morte do arquitecto que a imaginou, Antoni Gaudí, “foi a razão última para a viagem de Leão XIV à Espanha”, considerou o diário catalão La Vanguardia [1]. Pode ter sido. “Todas as hipérboles se tornaram já insuficientes para falar do templo de todos os recordes, idealizado por Antoni Gaudí”, comentava o jornal El País no último dia de Maio [2]. Seja como for, o périplo espanhol foi tão repleto de momentos inesquecíveis – discursos, gestos, celebrações, testemunhos –, que, todos, se podem incluir num rol de boas “razões últimas” para a visita do Sumo Pontífice.
“Primeiro, o amor; depois, a técnica”. O dito agradou, com certeza, ao Papa, que não afirma outra coisa na encíclica Magnifica Humanitas. Antoni Gaudí e Leão XIV não falam de técnica numa acepção exactamente igual, mas o amor de que falam é o mesmo.
O “ordo amoris”, tão oportunamente evocado por Laurie Anderson, no concerto que teve lugar em Braga, no Teatro Circo, no dia 2 de Junho, recomenda que se coloque a técnica num lugar secundário, apreciando-a se ela não se revelar nefasta para a humanidade, se estiver ao serviço do bem comum.
Na Magnifica Humanitas, Leão XIV mostra-se assaz inquieto ao constatar que, hoje, “a inovação é, frequentemente, entendida em função apenas da redução dos custos e do aumento dos lucros”. Considera o Papa que é de temer “uma significativa e rápida contracção dos postos de trabalho disponíveis, com um efeito em cadeia que afecta profundamente famílias, jovens e economias locais”. De resto, “em vários setores, isto traduz-se já em novas formas de precariedade e desigualdade, com remunerações muito elevadas para uma minoria altamente especializada e salários sempre mais reduzidos para uma grande parte da população activa”.
Para Leão XIV, “é desejável que a tecnologia alivie o homem de trabalhos particularmente pesados, repetitivos ou perigosos e ofereça um apoio inteligente à actividade humana; porém, o princípio geral deve continuar a ser a protecção dos postos de trabalho e do papel insubstituível da pessoa”. Ou seja: “O objectivo de maiores lucros não pode justificar escolhas que sacrifiquem sistematicamente o emprego, pois a pessoa humana é um fim e não um meio, e a ordem económica deve manter-se subordinada à sua dignidade e ao bem comum”.
O Papa coloca a questão laboral com enorme clareza: “O trabalho continua a ser uma dimensão fundamental da experiência humana: não é só um meio de subsistência, mas um lugar de expressão, relações e contributo para a comunidade”. É por isso que “os problemas ligados ao trabalho não se referem apenas ao rendimento necessário para a sobrevivência das famílias. Uma sociedade que só garantisse emprego a uma pequena parte da população exporia muitos a uma condição de inactividade forçada, de ausência de responsabilidades, de falta de compromissos e estímulos diários, com consequente empobrecimento humano e cultural, em contraste com o elevado nível de desenvolvimento técnico”. Se tal sucedesse, encontrar-nos-íamos, como assegura Leão XIV, “perante um paradoxo de progresso material e retrocesso antropológico, em que desapareceriam as condições para uma paz social justa e estável”. O objectivo é, pois, evidente: “O acesso de todos ao trabalho deve continuar a ser um objetivo prioritário das políticas públicas e dos processos económicos, um critério para avaliar a qualidade humana de um modelo de desenvolvimento”.
Após olhar para “a Babel moderna”, que, entre outras coisas, é “a corrida pelo desenvolvimento de tecnologias cada vez mais poderosas, ou pela garantia do seu controlo, segundo uma dinâmica desumanizante que parece não conhecer limites”, Leão XIV oferece um contraponto animador. É que, desviando um pouco o olhar, “vislumbramos grande parte da humanidade que procura permanecer humana e empenhar-se na construção da cidade da convivência e da paz”. Afirma o Papa que, “dela, todos nós somos frequentemente artífices sem o saber e arquitectos descoordenados, capazes de gestos generosos, mas desprovidos de uma visão de conjunto: trata-se de uma construção mais lenta, menos visível e espectacular, que aguarda ser mais bem compreendida e mais coordenada, para se tornar compromisso consciente e articulado de cada comunidade, desde a família ao governo dos Estados e suas relações”. Leão XIV explica que “é a este horizonte de empenho, a este estaleiro de esperança, que damos o nome de ‘civilização do amor’”.
[1] Iñaki Pardo Torregrosa – “‘Primero el amor, después la técnica’”. La Vanguardia, 28 de Maio de 2026
[2] Borja Hermoso – “El viaje eterno de la Sagrada Familia”. El País, 31 de Maio de 2026