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Orígenes de Alexandria defendeu a reencarnação


 

O pseudocristão movimento espírita, fundado por Alan Kardec, ao defender a reencarnação, procurou, desde que surgiu, buscar apoio para essa doutrina em autores cristãos. Um dos mais citados nos seus escritos é Orígenes de Alexandria. Ocorre que Orígenes de Alexandria nunca especulou acerca de como será alcançada a meta da Criação do mesmo modo que o faz o Espiritismo.

Sim: há semelhanças entre o que foi escrito por Orígenes e o que se devaneia hoje ser a reencarnação no movimento espírita. Mas as diferenças são muito maiores.

Por um lado, o Espiritismo e pelo mecanismo da reencarnação, o “espírito” humano (isto é, e segundo esse movimento, a centelha da individualidade que passa de ser para ser reencarnado, transmitindo a informação da sua identidade consciente prévia) vai progredindo, estagnando ou regredindo, no patamar humano, de “planeta” em “planeta” (visível ou invisível) neste Universo atual (o único que existiu, existe e existirá).

Note-se que o espírito não está “só” nessa “passagem”; há um “algo” (muito indefinido e diferentemente descrito na literatura espírita) que o acompanha e que, no seu caso, transmite dados acerca da matéria a que esse espírito esteve antes associado.

Por outro lado, Orígenes avança com a hipótese da existência de um número indeterminado de ciclos de “Criação” / “Redenção” / “Parusia”, para tentar compaginar o livre-arbítrio humano com o perdão recapitulador de tudo o criado com a Origem e Meta da Criação (Deus-Amor). Ciclos esses, que perduram até que, de um modo incondicionado, cada “alma” (ou “principio vital”) acolha a ação salvífica de Deus-Filho e, assim, regresse para o seio de Deus.

Neste contexto, Orígenes especula que, após um dado Universo ter regressado para Deus no fim de cada um dos ciclos antes referidos e se a “alma” do sujeito não aceitar ser acolhida no seio d’Este, ela readquire a sua originalidade primordial junto de Deus. Daí, ela vai ser amparada por uma nova matéria misericordiosamente criada por Deus num outro Universo distinto, sem que isso seja uma forma de condenação. E isto, sem memória do que fora antes, para que o livre-arbítrio não seja condicionado.

Sendo assim, não é minimamente apropriado falar de uma “reencarnação” no sistema deste autor, até porque ele rejeita explicitamente teorias semelhantes às espíritas (mas podendo-se aplicar as suas palavras a outras realidades, como o coevo budismo “diluído para gosto ocidental” e os esforços denodados de se “cientificizar” essa ideia imatura acerca do ser humano levados a cabo por insignes industriais). E fá-lo por as considerar alheias à, e incompatíveis com a doutrina cristã. Isto pode ser lido, por exemplo, no seu “Comentário ao Evangelho de João” (6, 14), redigido sensivelmente entre 222 e 242.

Note-se, por fim, que a Igreja rapidamente rejeitou acolher esta hipótese de Orígenes acerca do como é que tudo o criado por Deus a Ele regressaria. Todavia, ela nunca condenou a convicção (dele) de que, na verdade, toda a Criação será recapitulada (leia-se: voltar a unir-se à sua Cabeça, Jesus Cristo). Ou seja: a Igreja sustenta que, embora não por um processo como o crido por Orígenes, é um seu ardente desejo que tudo seja restaurado em Deus.

Alexandre Freire Duarte

Alexandre Freire Duarte

14 junho 2026