“O silêncio fala, quando as palavras se perdem. Ele revela verdades escondidas, traz paz e dá espaço para que o coração o escute. Em tempos de ruído e pressa, o silêncio se torna um refúgio poderoso, capaz de curar, acalmar e ensinar o que o som não alcança” - Óscar Wilde, escritor, poeta, dramaturgo irlandês - (1854 - 1900)
1 - Silêncio. Paz. Calma. Reflexão. Momento de escutar o palpitar da alma. De sentir a ligeira aragem que abraça a mente em busca de um espaço, mesmo exíguo que seja, talvez de um espaço vazio, não importa, perdido, que embala as pequenas coisas da incompreensão. Silêncio. Profundidade. Introspecção. Estado de espírito sereno. O deixar entrar uma brisa fresca de calma no coração levada pelo vento primaveril para lembrar a brusquidão que restringe a liberdade amiga. É preciso deixar passar aquele bulício que agita a multidão, perdida nas ansiedades e nas angústias de um tempo que corre depressa demais. É preciso apanhar aquela quietude, numa madrugada carregada de neblina, que faz recuar o tempo para vermos os detalhes que ficaram por responder. É preciso ficar um tempo na paragem à espera que o silêncio chegue.
Silêncio, o estar só sem estar só, para se coser os alinhavos de uma vida retalhada. É preciso deixar o silêncio fazer o seu trabalho, expandir-se serenamente para tornar a mente mais forte e mais liberta dos ruídos que abafam a serenidade de se estar só. É preciso estar em silêncio para se procurar os elos perdidos. Para rejuvenescer. Para novas ideias. É preciso mesmo ouvir o silêncio.
2 - Deixemos as palavras bonitas, sonoras, trabalhadas de lado e voltemos ao mundo real. Ao mundo da agitação. Da pressa. Das correrias. Das discussões intermináveis. Das imensas desigualdades que se afogam nos mares ilusórios das promessas. É bem preciso voltar que a azáfama não espera e as canseiras impõem o ritmo da jornada.
Na política nacional há ruído demais. Até confusão demais. Tudo a complicar o andamento. Os ruídos estridentes surgem nos sítios menos indicados e mais simbólicos: na casa da Democracia. Um ruído que fere a sã convivência. A tolerância. Magoa os amigos de ontem. Fere a vontade de se mudar o conformismo. Esse ruído tem que passar, com qualidade, para outra nota. Uma nota mais calma e mais profunda. Mais reconciliadora. A pensar no país. Só no país com inteligência e com espírito de servir. Os outros esperam pacientemente pela sabedoria das decisões.
3 - A este propósito, do silêncio, Passos Coelho fez bem. Esteve em silêncio e deixou passar o turbilhão que o aturdia. Agora, apareceu para marcar presença. Ainda bem que deu sinal de si. É um activo interessante para ficar no outro lado da barricada. Não merece e não pode ficar barricado. Mas, apareceu. Foi pena fazer demasiado ruído. E sem necessidade e sem motivos. Apareceu, muito de rompante e um pouco destravado na cena política. Talvez na altura errada. Pelo menos, de mensagem errada. Está a juntar mais ruído a um coro que o desafinou no tempo que ele próprio orquestrava.
Depois de um período longo de ausência, Passos Coelho ressurgiu de um silêncio benigno que lhe aumentava a auréola sebastianista. Faz mal falar de mais. Um falar amargo dirigido a quem esteve com ele nos momentos árduos da incompreensão. Depois de um bom silêncio, Passos Coelho deveria olhar bem de frente e com mais contenção a realidade que se lhe depara. Ou dizer ao que vem. Tem esse direito. Mas, dizê-lo com toda a clareza! Não pode ficar por aparecimentos fugazes. Muito menos por recadinhos doridos e com palavras polissémicas.