Queiramos ou não, conforme tenho vertido implícita ou explicitamente noutras crónicas, a História pesa deveras. E nos últimos tempos o ambiente político internacional parece repescar traumas do pós-1.ª Guerra Mundial e, mais remotamente, da época medieval.
Clarifiquemos.
Por um lado, tal como no 1.º pós-guerra, é hoje legítimo pensarmos que o progresso científico e tecnológico conseguido nas últimas décadas não tem sido acompanhado de uma elevação suficiente do pensamento civilizacional, de uma matriz cultural em prol da boa vizinhança entre as nações ou comunidades diferentes.
Finda a 1ª Guerra Mundial, ficou bem patente que a precedente Belle Epoque não passara de uma doce ilusão, violentamente esmagada, ridicularizada, a partir de 1914. Antes da guerra, os progressos da ciência tinham propiciado a descoberta da pasteurização ou da vacina contra a raiva (dois sucessos de Louis Pasteur), assim como do telefone, do automóvel ou do avião. Ah, mas permitiram também os avanços na química e na artilharia. O impactante canhão Berta, dos alemães (1914), ridicularizou os fortes de aço e betão armado das linhas defensivas belgas, no caminho para França. E a química propiciou a estreia do ataque através de gases, que sem o impacto tradicional do aço provocava morte agonizante nos soldados atingidos, que quando sobreviventes ficavam com frequência “avariados da cabeça”, (os célebres “gaseados”, na expressão popular, martirizados por neuroses e depressões). No final do conflito, cerca de 8 milhões de mortos.
Passou-se quase um século sobre a 1ª Grande Guerra. A capacidade de matar aumentou (cerca de 50 milhões de mortos na 2ª Grande Guerra). E o espectro da bomba nuclear ou atómica é hoje insanamente evocado, em tom de ameaça, por contendores que dispõem deste mefistofélico invento (altos dirigentes políticos russos, no contexto da Guerra na Ucrânia, têm enfatizado, com demasiada frequência, que dispõem desta e de outras temíveis armas).
Para justificar as maldades da guerra, por várias geografias surgem políticos a tentar aliciar a cumplicidade de Deus para o seu lado.
Os gregos antigos tinham Ares, os romanos Marte, e agora não poucos dirigentes tentam capturar a vontade de Deus para o seu lado da guerra, para a proteção das suas “trincheiras”, para as eventuais atrocidades maiores que venham a cometer.
E Samuel Huntington, uma espécie de profeta da desgraça (O Choque de Civilizações, 1996), vai somando credibilidade. Entre os radicais do mundo islâmico, é recorrente a referência ao patrocínio de Alá para os atentados ou ataques mais violentos que intentam ou logram. Diversos dirigentes políticos americanos atuais procuraram, de igual modo, reclamar como do agrado do seu Deus cristão, as investidas militares a que se propunham no Irão, como eventualmente em qualquer outro território.
Tudo não passa de uma recriação medieval na definição da vontade e propósito de Deus, perante os crentes.
As cruzadas, lançadas pelo Papa Urbano II (Concílio de Clermont, França, 1095) galvanizaram os cavaleiros cristãos para libertar a Terra Santa. Com mais ou menos veemência a busca do suporte divino prolongou-se no tempo. Com Portugal em vésperas de entrar na 1ª Guerra Mundial, tal como sucederia em França ou na Alemanha, podemos ler na imprensa bracarense padres a insinuar que o combate luso colhe o favor divino (sou padre, sou português. Como padre revejo-me no clero francês, que abandonando despeitos despe a sotaina, empunha a espada e com os olhos em Deus e na pátria sabe morrer vencendo…, padre Pires Lage in jornal republicano O Rebate, edição de 17 de abril de 1916).
Ainda que todos os grandes textos sagrados vertam diversas imagens e mensagens com violência, repercutindo também o espírito da época em que surgiram, no essencial propagandeiam a paz, a única via para o entendimento humano, para o progresso civilizacional.
Esteve bem, muito bem, o Papa Leão XIV quando se insurgiu publicamente contra aqueles que se reclamam de arautos divinos nos seus propósitos de guerra.
Precisamos de arredar para longe o apocalipse, precisamos de acrescentar horizontes seguros para o mundo. Ao cidadão comum, como aquele que escreve estas linhas, cabe manifestar-se e, designadamente, apostar em propostas políticas, em agentes políticos, que sejam mais fazedores de pontes, do que garantidos vencedores de intermináveis guerras.
* Doutorado em História Contemporânea pela Universidade de Coimbra