Hoje é um daqueles dias em que os dedos se recusam a tocar as teclas do portátil. É verdade, também têm direito a fazer gazeta. Dizem que só escrevem se o pensamento do cronista estiver fluído. Não sendo o caso, parecem dizer que não estão dispostos a mexer-se como se tivessem autonomia, vontade e inteligência próprias, características não são normais em dedos, em mãos ou braços humanos.
O cronista não culpa as extremidades que mais se aproximam das teclas que escrevem letras, palavras, frases e até um texto completo e, quase sempre, corrigem o que está errado ou o que não encaixa na forma como o autor pretende dizer o que o traz à crónica. Era o que mais faltava, descarregar a culpa em terceiros inocentes para se sair desculpado pelo resultado! Não seria o único, infelizmente, mas não era apropriado e muito menos justo. Há tantos que culpam os adversários pelas suas próprias asneiras – refiro-me, claro, aos primeiros – que seria fácil o autor misturar-se na multidão. Mas, não seria coerente. Ainda que pecados não lhe faltem, deixaria de se distanciar o suficiente para escrever o que semanalmente procura dizer aos leitores, ainda que não consiga deixar alguma subjectividade no que escreve. Quando se opina sobre alguma coisa, há sempre algo de pessoal que se deixa passar para a corrente das palavras e linhas de escrita.
Os leitores já perceberam que estou neste jogo de palavras enquanto algum tema que possa ter interesse não me invade o pensamento. Cheguei a pensar escrever algo sobre a primeira carta do Papa Leão XIV (Magnifica Humanitas) à Igreja, mas não me sinto ainda preparado. Posso apenas dizer que é pertinente e actual face aos desafios que a Inteligência Artificial (IA) vai trazer à Humanidade se for utilizada sem balizas bem definidas.
Também pensei dizer algo sobre a qualidade ou a falta dela relativamente a alguns serviços públicos, sobretudo, depois da conversa que tive um dia destes com o amigo Pereira, mas considero ser preferível reunir mais informação. Que os serviços de atendimento ao público parecem ir de mal a pior não é nada que seja alheio a um qualquer cidadão que precisa de um documento, de uma informação, ou de fazer um pedido mais especializado. Quem não se confrontou com uma espera de uma hora ou mais a aguardar a sua vez para expôr um assunto e regressou a casa de mãos vazias? Na verdade, este desconsolo chega a experimenta-se em serviços criados para resolver assuntos "na hora", sem burocracia. Contou-me o amigo Pereira que na semana passada tinha dois assuntos para resolver, um numa instituição financeira e outro num serviço público – ainda que saiba, não quero aqui identificar nenhuma das instituições – e que o atendimento foi bem distinto: na primeira, resolveu "na hora" o problema, de forma expedita, recorrendo a agência aos meios tecnológicos disponíveis; na segunda, ainda que o serviço tenha sido criado para desburocratizar, a coisa correu mal, admitindo o meu amigo que por falta de recursos. Mas, não ouvimos um ex-responsável político dizer que a fiscalidade em Portugal anda a extorquir os cidadãos, tão elevados que estão os impostos?
Lembrei-me agora das reformas sistematicamente prometidas pelos diferentes Governos e sempre adiadas, enviadas para as calendas gregas. A razão é que os governantes não conseguem ver para além do tempo do mandato. Até podem ser anunciadas numa campanha eleitoral, só que depois quem fica no poder começa a fazer contas ao tempo que resta de mandato e a desvalorizar a oportunidade. Que governante arrisca produzir uma reforma estrutural para o país, mas que vai ter efeito negativo na contagem de votos do seu partido no acto eleitoral que se segue? Que governante tem a humildade suficiente para respeitar os resultados eleitorais e sentar-se à mesa para negociar com as oposições de coração aberto? Tenho para mim que qualquer reforma com futuro só acontecerá com uma negociação séria em que todos os intervenientes fiquem a ganhar, de outra forma a decisão não passará de algo meramente conjuntural.