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Braga: uma cidade para todas as idades (?)

Braga enfrenta hoje um dos maiores desafios sociais das próximas décadas: construir um concelho verdadeiramente preparado para o envelhecimento da sua população. Mais do que uma questão demográfica, trata-se de um compromisso coletivo com a dignidade, a participação e a qualidade de vida das pessoas idosas.

A integração do Município de Braga na Rede Global de Cidades e Comunidades Amigas das Pessoas Idosas da Organização Mundial da Saúde representa um passo importante nesse caminho. Esta adesão demonstra a intenção de alinhar Braga com cidades que assumem o envelhecimento como uma prioridade estratégica, promovendo políticas públicas mais inclusivas, acessíveis e centradas nas pessoas.

Mas importa perguntar: o que significa, na prática, ser uma cidade amiga das pessoas idosas? Significa criar condições para que todos possam envelhecer com segurança, autonomia, saúde e participação ativa na comunidade. Significa pensar os espaços públicos, os transportes, a habitação, a saúde, a cultura e a vida social de forma integrada. Significa, acima de tudo, ouvir quem envelhece e quem diariamente trabalha, junto desta população.

O Plano Municipal para a Longevidade 2024-2027 constitui um instrumento relevante nesta reflexão. Estruturado em torno dos eixos do bem-estar, participação, segurança e inovação, o plano nasce de um diagnóstico participado que envolveu população idosa, técnicos, autarcas e organizações locais. E os dados conhecidos exigem responsabilidade coletiva.

Num concelho onde quase 20% da população tem mais de 65 anos, persistem realidades preocupantes: idosos sem água quente, sem aquecimento, sem elevador, sem meios de comunicação básicos e, em muitos casos, em situação de isolamento social. São números que não podem ser ignorados e que nos obrigam a olhar para o envelhecimento não apenas como um desafio futuro, mas como uma realidade presente que exige uma célere atuação.

Há pessoas idosas em Braga que vivem sozinhas, com dificuldades de mobilidade, em habitações pouco dignas e afastadas das redes de apoio. Há instituições sociais que diariamente fazem um trabalho extraordinário, muitas vezes com recursos humanos limitados e espaços físicos a carecer de melhoramentos. Há profissionais, cuidadores e voluntários que conhecem profundamente as necessidades do território e cuja experiência deve ser valorizada na definição das políticas públicas municipais.

É precisamente aqui que reside um dos maiores desafios: ouvir mais e decidir melhor.

O Município dispõe já de respostas importantes, como o Gabinete de Apoio à Pessoa Idosa (GAPI), a Academia Sénior, o RED MAY, o Cartão Sénior ou programas de combate ao isolamento. Existem boas práticas e projetos relevantes que devem ser reconhecidos. Contudo, nenhuma estratégia será verdadeiramente eficaz sem uma escuta ativa, regular e estruturada das instituições, dos profissionais e das próprias pessoas idosas.

É essencial promover um levantamento exaustivo das necessidades das respostas sociais do concelho, identificar carências concretas e criar mecanismos permanentes de participação. Não basta planear para as pessoas idosas; é necessário planear com estas e com os profissionais que delas cuidam.

As cidades do futuro terão inevitavelmente de ser cidades para todas as idades. O envelhecimento não pode continuar a ser associado à dependência ou à exclusão. Pelo contrário, envelhecer deve significar continuar a participar, decidir, conviver e viver com qualidade.

Braga tem hoje a oportunidade de afirmar uma nova visão de cidade: mais humana, mais próxima e mais preparada para cuidar das suas pessoas, independentemente da sua idade. A forma como cuidamos das nossas pessoas idosas hoje será o verdadeiro teste à cidade que queremos ser amanhã.

Marta Mendes

Marta Mendes

4 junho 2026