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Ousadia e coragem

 



 

Passaram-se cinquenta dias sobre a Páscoa (24 de maio). Ela, porém, não termina. Revive-se todos os domingos e deve inspirar toda a vida cristã. É no quotidiano que ela acontece. Não é apenas a festa mais significativa a ocupar um lugar central: passa o seu tempo, mas o espírito deve permanecer. É memória viva e permanente apelo ao dever-ser. 

O Papa Leão afirmava que a alegria pascal é uma música que vence a resignação e a mediocridade espiritual. Ao celebrar o Pentecostes, encerrando o tempo pascal, entra-se no tempo comum, que vive da coragem, da sabedoria e do ardor missionário que ele oferece. Houve um acontecimento vivido fisicamente por um grupo muito reduzido de discípulos. A aventura evangelizadora ultrapassou séculos e continentes, e hoje a Igreja terá, necessariamente, de viver no Espírito, como dom oferecido e acolhido no Batismo e na Confirmação: “Ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo.” (At 1,8). 

Se esta foi a promessa, a experiência tornou-se a sua confirmação. Estando todos reunidos no mesmo lugar, ressoou um som comparável a uma forte rajada de vento; viram aparecer línguas como de fogo sobre cada um deles; todos começaram a falar outras línguas; e a multidão, proveniente de diversas regiões e culturas, ouvia-os falar na sua própria língua materna (cf. At 2,1-12). 

Celebrar esta festa não pode ser mero exercício de memória. Deve tornar-se apelo à conversão. Nunca se falou tanto do Espírito Santo como nos dias de hoje. Surgem expressões ricas de significado e interpelação. Mas, mais do que palavras, a vida deve ser conduzida por este hóspede interior. Precisamos de redescobrir, também em termos doutrinais, tudo quanto a teologia recente nos oferece. Do mesmo modo, os documentos do Magistério nunca foram tão ricos. Contudo, isto constitui apenas o primeiro passo — e talvez aqui resida um dos grandes desafios da Igreja. Progredir na doutrina pneumatológica é essencial; acompanhar essas intuições com uma vida segundo o Espírito é condição de tudo o resto. 

Não faltam aqueles que sabem mais do que nós sobre as problemáticas do quotidiano. A ousadia do diferente, proveniente do Espírito, será talvez o único caminho capaz de cativar para o encontro com Cristo, o Filho amado do Pai. Nunca se falou tanto de espiritualidade como nos tempos atuais. A publicidade apropria-se frequentemente desta palavra para promover iniciativas marcadas, muitas vezes, por interesses meramente materiais. Não é por acaso que um autor católico, Manicardi, já sugeriu que deveríamos abandonar a palavra “espiritualidade”, substituindo-a por “vida no Espírito”. Terá razão? 

Para os Apóstolos, o acontecimento do Pentecostes foi um novo início. Sabemos muito pouco da sua ação evangelizadora. A história confirma, porém, que poucos anos após a morte de Cristo a Sua mensagem tinha chegado aos quatro cantos do mundo. Não conhecemos todos os pormenores. A tradição refere que todos morreram mártires, em lugares diversos e distantes, embora nem sempre seja possível comprovar historicamente esses dados. Enfrentaram o desconhecido e ousaram falar sem medo. Não permaneceram fechados, mas partiram. Se, no dia de Pentecostes, perante a diversidade de línguas, todos compreenderam a novidade da Ressurreição de Cristo, depois foram os próprios Apóstolos que arriscaram e acreditaram na força e na ousadia da Boa Nova. 

Hoje, basta olhar para o mundo para reconhecer que a renovação eclesial, tantas vezes pedida pelos Papas, passa por esta fidelidade ao Espírito. Todos os cristãos são portadores de uma força dinâmica que os torna discípulos missionários. As qualidades humanas não são o único critério. A força evangelizadora não nasce apenas de estratégias humanas. Basta, muitas vezes, uma presença inspirada. 

Vivemos o tempo da concretização do Sínodo. O Documento Final, ao olhar para o “coração da sinodalidade”, não hesita em afirmar que “todos somos chamados pelo Espírito à conversão”. Só esta poderá gerar o grande milagre que os tempos atuais exigem: a unidade na diversidade. Um único Espírito, presente em cada um de modo diferente. 

Precisamos, de facto, de superar as divisões, tão presentes na vida humana e eclesial. A diversidade não se opõe ao Pentecostes. Nascemos para ser diferentes, e é precisamente a presença do Espírito em nós que impede que o conflito prevaleça, permitindo, antes, que a harmonia revele a beleza do plural. Importa, porém, nunca esquecer que esta diversidade é uma riqueza para construir um mundo melhor, unido não apesar das diferenças, mas precisamente através do entrelaçar de vidas e de corações.

 



 

D. Jorge Ortiga

D. Jorge Ortiga

24 maio 2026