Fez um grande sucesso (ao menos nos meios religiosos e literários) um livro da primeira metade do século passado – ‘Diário de pároco de aldeia’ de George Bernanos – onde se falava das vicissitudes de um jovem padre (cura), deixando as suas impressões sobre o ambiente social e religioso, bem como as suas mazelas pessoais e lutas interiores. Hoje, pelo que vemos e lemos, há por aí muitos ‘curas’ – agora párocos, capelães, prelados e noutras funções – tentando emitir as suas leituras quase ao ritmo diário com fotos, impressões e sensações.
É sobre este paralelo – mesmo que algo desfasado nos meios, nas ações e nas conclusões – que desejo ocupar-me sem pretender dar lições nem conduzir a observações menos favoráveis…
1. Vejamos um resumo do tal livro do ‘Journal d’un cure de campagne’, publicado em 1936. O romance descreve a existência discreta dum jovem padre católico de uma pequena paróquia da região norte da França…pobre e com dificuldades. O pároco toma partido pelos pobres e contra os ricos, dando a ideia – segundo alguns críticos – de que ‘um verdadeiro padre nunca é amado’, não é o mel, mas antes o sal da terra, não é doce, faz arder as feridas. No romance o padre sofre fisicamente de dores no estômago e espiritualmente desespera com a falta de fé da população da sua aldeia. Sente-se fraco, inferior, e pensa por vezes que está tocado pela loucura, mas crê firmemente que a graça de Deus perpassa pelo seu sacerdócio.
2. Tendo feito este percurso sucinto sobre as intenções do ‘Diário de um pároco de aldeia’ eis que podemos e devemos tentar encontrar as razões que levam tantos dos ministros ordenados em estarem nas redes sociais e na ebulição das simpatias populares, usando tais recursos, ferramentas e quase-tentáculos.
Numa consulta quase distraída da presença de tais mentores – alguns parecem querer assumir o papel de influencers – encontramos dezenas, senão mesmo centenas, de navegantes na internet. Poderemos ver este tema de diversas perspetivas: transmitir missa ou outros atos religiosos através dos meios da internet é evangelizar? De que modo podemos estar na internet da mesma forma que na igreja sem comunicação ou sabendo usar os meios de comunicar adequados? Colocar fotos ou vídeos de celebrações – nalguns casos ditas como cerimónias – salvaguarda a proteção de dados daqueles que são mostrados? Não haverá algum afã de tudo mostrar para que se veja serviço e, assim, criar popularidade? Até onde estaremos capazes de ir por forma a fazermos da possibilidade de presença na internet – nos seus vários recursos e meios – uma ferramenta capaz de anunciar a mensagem do Evangelho e não daqueles que são os instrumentos (humanos e setoriais) de tal evangelização?
3. Recordo a frase de um bispo – pioneiro na arte do digital e já emérito – que dizia: eu tenho o facebook para saber por andam os meus padres! Efetivamente, se atendermos aos recursos potenciados pela internet poderemos perceber onde estamos, mas com dificuldade poderemos prever com clareza aonde chegaremos. Numa abordagem quase simplista encontramos quem, no meio eclesiástico, apresente milhares de seguidores com centenas de milhar de visualizações dos seus ‘discursos’ e intervenções, com contas em todas as redes sociais (sobretudo as mais juvenis e populares)…numa apresentação que tenta seduzir, mas que corre o risco de ficar tropeçada no ‘eu’ do comunicador. Se assim não fosse haveria tantos a recorrer ao (dito) digital como se fosse a derradeira moda de ser e de estar com os outros? Nota-se alguma apreensão sobre o que o futuro nos reserva, tendo em conta o aproveitamento bastante egoísta e quase exibicionista de tantos senhores da religião, dentro e fora da Igreja católica. Não estará a faltar mais humildade e menos petulância nos resultados obtidos?
4. Quem ousaria antepor a mensagem ao mensageiro? Quem subverteria, por filtros menos criteriosos, a palavra profética ao discurso de sucesso? Quem preferirá ser enganado a ser informado, quando isso ponha em causa os seus critérios? Como devemos estar presentes no digital, sabendo utilizar as técnicas sem prescindir dos valores?