Nos tempos de cristandade, as festas litúrgicas marcavam o ritmo da vida das pessoas. Vivia-se para elas e eram esperadas com alguma ansiedade e alegria. Com a secularização, tudo se foi alterando. Mesmo as festas mais densas de significado são desvirtuadas e ficam limitadas, muitas vezes, a acontecimentos de que a lógica do consumo procurou apropriar-se.
É neste contexto social que não podemos desperdiçar aquilo que as festas significam. Elas valem pelo seu valor litúrgico e ajudam a dar novidade ao dia a dia.
No dia 17 de maio celebramos a festa da Ascensão. Ninguém ignora o seu significado. Há, porém, um pormenor de grande atualidade: “Homens da Galileia, porque estais assim a olhar para o céu? Esse Jesus, que vos foi arrebatado para o céu, virá do mesmo modo como agora O vistes partir para o céu.” (At 1,11).
A atitude de ficar a olhar para o céu, alheando-se do que se poderia e deveria fazer, é mais comum do que imaginamos. Acontece na Igreja e na sociedade civil. A solução dos problemas parece que virá sempre “dos céus”; outros se responsabilizarão.
A este comportamento gostaria de contrapor o que a Igreja espanhola propôs no hino para a visita que o Papa Leão XIV efetuará a esse país (6 a 12 de junho): “Levanta o olhar”. A explicação, dada pela Sala de Imprensa do Vaticano, dispensa muitos comentários. O lema da viagem “é um convite a erguer o olhar para além das preocupações quotidianas, para redescobrir a presença de Deus e abrir-se aos outros”. O texto de suporte é o encontro de Cristo com a samaritana (Jo 4,35). Junto ao poço, acontece um encontro inesperado e provocador de perplexidade. Torna-se “um convite à esperança e à contemplação, que exorta a não se fechar em si mesmo, mas a reencontrar a unidade, a beleza e a caridade como sinais concretos de uma vida partilhada”.
Não deveria ser permitido fechar-se em si próprio, olhar apenas para si e esperar que o mundo evolua. Hoje, precisamos de olhar para o alto, pois que abrir-se-ão novas perspetivas, mesmo perante acontecimentos por vezes dramáticos. Recordo a “Cantata da Paz”, de Sophia de Mello Breyner Andresen, escrita para uma vigília de oração pela paz e contra a guerra: “Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar.”
Como nunca, estamos rodeados de problemas. São-nos muito próximos. Entram em nossa casa, mesmo sem os procurarmos. Contudo, parece que estamos anestesiados e que haverá sempre alguém que cuide e resolva.
O referido hino da visita do Papa chama a atenção para alguns dramas: “Pelos que procuram a paz e a liberdade, para que encontrem nos Teus olhos onde descansar. Pelos que cruzam o mar em busca de um lar, para que vejam mais além da tempestade.” Há muitas sombras evocadas. Não se trata de uma mera descrição sociológica. Se precisamos de levantar o olhar e não ficar a olhar para o céu à espera de que outros resolvam os problemas, há um passo a dar. O hino é inequívoco: “Não fui feito para olhar para o chão. Ao olhar-Te, sei por que nasci. Criaste-me para olhar para o céu; inquieto estou enquanto não descansar em Ti.” Para o mundo moderno são necessárias soluções urgentes. Urge unificar o interior e acreditar que a revolução da fraternidade e da igualdade está em curso: “Levanto o olhar, os meus olhos em Jesus; levanto o olhar, cravado na cruz; quando olho para o céu, tudo é novo com a Sua luz.”
Eis o segredo dos segredos: Jesus sobe aos céus, mas não permite que os seus fiquem a olhar para o céu. Ele deve continuar a ser o centro de gravitação, levando aqueles que O seguem a escrever histórias de verdadeira humanidade. Não esqueçamos que o Papa é agostiniano e que Santo Agostinho, após uma experiência única, marcou uma época na história da Igreja. Essa experiência perdura não só no livro das Confissões, mas também no coração de homens e mulheres apaixonados por um mundo diferente: “Tarde Te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde Te amei! Eis que habitavas dentro de mim e eu, lá fora, a procurar-Te. Estavas comigo e eu não estava contigo! Exalaste o Teu perfume: respirei-o profundamente e suspiro por Ti. Saboreei-Te e agora tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me e ardi no desejo da Tua paz.”
Devemos “andar fora”, mas Ele está dentro. E, a partir de dentro, projeta-nos para um mundo que reclama amor e salvação. Não devemos ficar a olhar para o céu.