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Proas do Douro

De Mesão Frio ao Mazouco, da Serra da Garraia à Serra da Lapa, o Douro é um império de território. Do rio e dos miradouros da Galafura, de S. Salvador do Mundo ou do Penedo Durão, sente-se a omnipresença de uma terra que tudo conforma — como as palavras de António Cabral e de João Araújo Correia tão bem evocam.

A designação é multidimensional. É a mais antiga Região Vinícola Demarcada do mundo, instituída em 1756, com cerca de 2.500 km²; é um território Património Mundial, com 246 km² ao longo de 13 concelhos; e é uma Comunidade Intermunicipal com 19 municípios, mais de 4.000 km² e cerca de 184.000 habitantes. É desta CIM –— a primeira analisada nesta série “Ser daqui” –— que este artigo trata.

O Douro — rio, território, património e vinho –— é a força da natureza numa orografia telúrica e num clima de extremos; a força da vontade que moldou a paisagem numa epopeia hercúlea de gerações; a força da História, dos Romanos aos Monges de Cister, do Marquês de Pombal e de Frei João de Mansilha ao Barão de Forrester e à Ferreirinha, até aos protagonistas do presente; e a força dos sabores de castas autóctones, oferecendo experiências únicas a conhecedores e a novos apreciadores.

Um território que devia prosperar — e não prospera

Com tudo isto, o Douro devia ser um território de prosperidade, atrativo para pessoas e empresas: produtor de vinhos de excelência, destino turístico de segmentos altos e gerador de conhecimento vitivinícola. Mas não é.

Os indicadores revelam uma realidade dura, que ofusca o idílico da paisagem. Em 2023, o PIB per capita da sub-região atingiu 76% da média nacional, face aos 86% do Norte (que não é brilhante). Desde 2011, perdeu cerca de 19.000 habitantes — 9% da população. O índice de envelhecimento ronda os 280, quando o do País é 188. E o nível de qualificações permanece significativamente abaixo da convergência nacional e europeia observada no Norte.

Há, porém, sinais de esperança: a produtividade cresceu a um ritmo superior ao do Norte e do País; as exportações quase duplicaram na última década, embora o vinho, que representa cerca de metade do total, enfrente sinais preocupantes; e o turismo, excluindo cruzeiros, ultrapassa já as 600.000 dormidas anuais.

Neste Douro paradoxal, a lógica é simples e implacável: sem pessoas, não haverá vinho nem paisagem vinhateira; sem água, não haverá vinho nem pessoas; e sem pessoas, vinho e paisagem, não haverá turismo.

Desafios, valor e concertação 

Como a Europa e o País, o Douro enfrenta desafios: a demografia, as alterações climáticas e a transição digital.

Atrair e fixar jovens exige melhores salários na agricultura e no turismo, habitação condigna, educação de qualidade e maior oferta cultural. Exige valorizar o rico património imaterial vitivinícola — ainda insuficientemente trabalhado — e um plano de imigração e acolhimento assumido por autarcas e agentes económicos.

As alterações climáticas são uma realidade mensurável: a temperatura média subiu 1,4ºC até 2020 e poderá atingir 3ºC em 2050, enquanto a precipitação diminui, agravando o stress hídrico. A resposta implica selecionar castas mais resilientes, melhorar práticas de viticultura, evoluir para zonas mais frescas — e regar. Regar de forma inteligente e sustentável, preferencialmente por gravidade e com armazenamento em altitude, no quadro de uma verdadeira reforma agroambiental. Como no passado, a escassez de água continuará a marcar o futuro.

A transição digital, por sua vez, não pode ficar para trás — na agricultura de precisão, no turismo e na capacitação dos cidadãos.

Num mercado global com excedentes de vinho, maiores restrições e novas preferências de consumo, o Douro — onde os custos de produção podem ser várias vezes superiores aos de outras regiões — não pode competir pelo preço. Tem de competir pelo valor. Valor que decorre da excelência dos seus vinhos, da sustentabilidade das práticas, das experiências imersivas, da gastronomia e das narrativas culturais. Valor que tem também de ser mais retido no território.

O maior desafio é, porém, a concertação. Entre autarcas e agentes económicos. Entre produção, comércio e regulação do vinho. Entre desenvolvimento, património e articulação urbano-rural. E entre entidades públicas, com respostas mais ajustadas às especificidades do território e às necessidades das pessoas.


 

Uma ideia de Douro


 

Dessa concertação deve emergir uma ideia de Douro: uma grande “cidade-rural”, articulada em torno dos seus 19 polos, que rejeite a fealdade, aposte na inovação, na educação e numa agenda cultural rica. Uma economia mais diversificada — do azeite aos frutos, da pedra à indústria, do vinho ao turismo. Um território mais conectado, em termos rodoviários, ferroviários, fluviais e digitais. Um espaço comprometido com a neutralidade carbónica e com a valorização do conhecimento, afirmando-se como referência mundial na investigação e no ensino da vitivinicultura.

O conceito unificador é o de uma paisagem cultural viva — laboratório de sustentabilidade entre atividade humana e natureza.

Um Douro construído pelos seus agentes e pelos seus cidadãos, que avance para o futuro sulcando as ondas da eternidade, com a firmeza das proas de penedos de Torga.

António M. Cunha

António M. Cunha

13 maio 2026