twitter

Por Entre Linhas e Ideias

Como podemos falar do nada, se o nada é nada?” Caros leitores, esta semana resolvi fazer uma pequena maldade intelectual convosco. Normalmente, estas crónicas andam por temas éticos, inquietações humanas e perguntas filosóficas mais ou menos suportáveis. Desta vez, porém, decidi complicar ainda mais o pensamento de quem me lê, porque o tema é simples de formular mas depressa nos arrasta para um verdadeiro labirinto de ideias.

À primeira vista, esta pergunta pode soar a provocação absurda ou àquelas questões inesperadas que uma criança faz quando ninguém está à espera. Contudo, talvez sejam precisamente essas perguntas aparentemente inúteis que mais nos obrigam a pensar, porque mal pronunciamos a palavra “nada” já a estamos a transformar em alguma coisa, dando-lhe um nome e quase uma existência. É aqui que nasce o verdadeiro paradoxo, porque quanto mais tentamos pensar o nada, mais difícil se torna compreendê-lo.

Foi precisamente por isso que o filósofo alemão Martin Heidegger escreveu uma frase tão famosa quanto desconcertante: “O nada nadeia.” À primeira vista parece apenas um jogo de palavras estranho, mas Heidegger queria mostrar que o nada não é uma espécie de coisa invisível perdida no universo. O nada surge sobretudo nos momentos de silêncio, de angústia e quando paramos para pensar na nossa própria existência.

Para compreendermos melhor este mistério podemos recorrer à mitologia grega. Dédalo construiu um labirinto tão complexo que ninguém conseguia sair dele. No centro habitava o Minotauro e Teseu entrou nesse lugar sabendo que talvez nunca regressasse. Salvou-se apenas porque Ariadne lhe deu um fio para marcar o caminho de volta. No fundo, esta história parece uma metáfora da nossa própria vida. Também nós caminhamos muitas vezes sem certezas, tentando perceber quem somos, porque existimos e o que fazer com o vazio que às vezes sentimos dentro de nós. 

Basta olharmos para as coisas mais simples da nossa vida para entrarmos imediatamente neste mistério. Porque existe esta pedra no chão em vez de não existir absolutamente nada? Porque existe este jornal, esta cidade, este leitor desse lado da página? Porque existes tu? Porque existo eu?

Há mais de três séculos, o filósofo Gottfried Wilhelm Leibniz fazia uma pergunta que continua a inquietar-nos hoje, “Porque existe alguma coisa em vez de nada?” E quando olho para esta questão percebo como ela continua difícil de responder, porque a ciência consegue explicar muito sobre o funcionamento do universo, mas continua sem conseguir responder plenamente a uma pergunta ainda mais inquietante: o que existia antes da origem do universo? Havia apenas o nada? Mas se existia o nada, então o nada existe realmente? E talvez seja aqui que o pensamento entra outra vez no labirinto. Até os buracos negros continuam envolvidos nesse mistério, porque muitas vezes são vistos como enormes vazios no universo, regiões onde a gravidade é tão forte que nem a própria luz consegue escapar.

Ainda assim, o mais curioso é perceber que o nada não é apenas uma questão filosófica. Está presente nos dias de trabalho das pessoas, nas suas experiências e até na forma como vivem certos momentos da vida. Quantas vezes ouvimos alguém dizer: “Não tenho nada.” Nada para fazer, nada para dizer, nada que valha a pena. E talvez a frase mais comum de todas seja precisamente, “Não sinto nada.”

Quero concluir esta crónica recordando o filósofo Jean-Paul Sartre que, no livro O Ser e o Nada, escreveu que “o homem é o ser pelo qual o nada vem ao mundo.” Talvez seja precisamente por isso que continuamos a fazer perguntas difíceis, a procurar sentido e a tentar perceber o que andamos afinal aqui a fazer.

Estimados leitores, antes de virarem a página do jornal ou pegarem novamente no telemóvel, vale a pena parar alguns segundos e perguntar:


 

- E se o verdadeiro medo humano não for a morte, mas o nada?

Eugénio Oliveira

Eugénio Oliveira

13 maio 2026