twitter

E se o sonho construísse a realidade?

E se o projeto de uma casa, por si só, construísse a casa!?

Pois é, nada mais, nada menos do que isso que está a acontecer no mundo digital com a IA. Algo que, por um lado, abre grandes oportunidades e, por outro, traz desafios profundos de transformação e disrupção.

O desenvolvimento de aplicações orientado pela especificação, o chamado Specification-Driven Development (SDD), não é uma ideia totalmente nova. Já o TDD (Test-Driven Development) e o BDD (Behavior-Driven Design) defendiam, há anos, escrever primeiro a intenção e só depois o código. O que mudou foi o catalisador. A IA tornou esta abordagem finalmente prática. Até aqui, a especificação fixava-se cedo e raramente acompanhava as mudanças com o mesmo ritmo do projeto. Qualquer alteração era vista como problema, mudança não prevista, algo a evitar.

Com IA, o jogo inverte-se. As mudanças e melhorias passam a ser bem-vindas, tratadas como “ouro” que nos liga cada vez mais ao domínio em que trabalhamos. Entendemos melhor o que se faz, como se faz e o que é realmente necessário. A pressão dos pedidos não previstos diminui, e o resultado vai-se apurando continuamente.

Nesta abordagem, a especificação orienta a geração do código e dos artefactos, desde a estrutura inicial até à revisão. Não substitui programadores nem arquitetos, mas dá-lhes uma enorme ajuda. A revisão humana e o entendimento do que é gerado continuam essenciais, do princípio ao fim, porque são as equipas que respondem ao cliente. Mas o potencial é real.

Talvez esta abordagem não fosse viável sem IA. A produção de artefactos ganhou vitaminas e velocidade de execução. Mas o seu uso aqui é mais do que produzir mais depressa, está na génese de um novo modelo de produção de software. A especificação, em linguagem natural, ganha protagonismo. Descrevemos o que pretendemos quase como um sonho posto em palavras. O código, as arquiteturas e os componentes tornam-se apenas os meios para concretizar esse sonho.

O texto que descreve o problema, ou aquilo que queremos realizar, ganha literalmente vida. Vai sendo construído, revisto e refinado, transformando-se em documentação viva, planeada e estruturada.

No desenho das soluções, outras abordagens fluem com naturalidade, como o Domain-Driven Design (DDD), criado por Eric Evans em 2003. Em essência, é “chamar os bois pelos nomes”. Falar todos a mesma linguagem (técnicos e pessoas do negócio) e desenhar o software de forma a refletir o próprio negócio que serve. Em vez de termos técnicos desligados do mundo real, o software espelha o domínio, com os mesmos conceitos, os mesmos nomes, a mesma lógica. Mais substância, menos jargão.

Com as devidas diferenças entre o digital e o físico, aproximamo-nos cada vez mais da possibilidade de materializar os nossos sonhos, à medida da nossa audácia e ambição. E mesmo no mundo físico, com a ascensão da impressão 3D e outros avanços, já faltou mais!

Difícil será, isso sim, preparar a nossa mente para imaginar e criar 10 vezes mais do que aquilo a que está habituada.

Por isso fica o desafio. Se pudéssemos criar o que quiséssemos, o que imaginaríamos hoje para estar pronto… amanhã?

Guilherme Teixeira

Guilherme Teixeira

13 maio 2026