Foi para mim delicioso ouvir as palavras do Papa aquando da sua visita a Angola. De forma serena e num português bem percetível, foi lá dizer aquilo que as nossas autoridades nacionais, temerosas e ambíguas, sobretudo Presidentes da República e Ministros, nunca foram capazes. O Chefe de Estado do Vaticano não só não foi parco nas palavras da “mensagem” que levou às autoridades angolanas, como cirúrgico. Chegou, avaliou a situação local, inquietou-se com as desigualdades e a pobreza e tomem lá o rol de desumanidades, como a injustiça social, opressão e exploração que grassa naquele território angolano em pleno Séc. XXI.
Portugal não o faz por ter em vista interesses e negócios futuros com aquele país. Já Leão XIV, nada disso o move, a não ser a evangelização dos povos e espalhar a doutrina da fé. Por isso, aos mais ricos disse-lhes que “para eles usufruírem da riqueza há um terço da população a viver abaixo do limiar da pobreza”. Isto, sem cair na teoria fácil do Presidente João Lourenço de que o deplorável estado do país se deve, ainda hoje, ao colonialismo português. Ele sabe que não é essa a causa, mas sim a corrupção, o nepotismo, o mau estado da democracia e falta de liberdade que grassam naquela terra africana.
De tal forma aludiu a tais questões que nos 800 km de percurso fez questão de passar junto às minas de diamantes. Não, sem ter aludido a elas e às jazidas de petróleo bruto ali existentes. Como que a querer dizer àquele povo que podia viver bem, não fosse o facto dos políticos que o governam serem gananciosos e corruptos. Ou seja, se em vez de usarem tais fontes de riqueza em benefício próprio, as direcionassem no sentido da melhoria das condições de vida de toda a população angolana.
Tendo sido graças à visita do Sumo Pontífice, que a esperança do povo d’Angola, naquele momento, renasceu. Não só para os católicos, como para os de outras crenças que por lá vivem, habitam e trabalham. Exemplo disso, foi a multidão que não só assomou às ruas a saudar o líder da Igreja Católica como foram 40.000 os féis que, fervorosamente, assistiram à Sagrada Eucaristia por ele celebrada. Em cuja homilia para além de outras verdades não deixou de afirmar que “quando as injustiças corrompem os corações e consomem o pão de todos, o mesmo torna-se propriedade de poucos”. Querendo com isso dizer que sem amor ao próximo, justiça e solidariedade se torna difícil haver paz. Disse-o em Saurimo, uma região onde a falta de evangelização e o catolicismo mais se faz sentir.
Algo que admiro neste Papa é que apesar do contraste da sua figura franzina, com as robustas do Presidente angolano e da dos Estados Unidos da América, em nome da Igreja Católica, fala o que tem a falar. Não temeu o primeiro, ao dizer as verdades na terra dele. Como não se inibiu de responder, perante os jornalistas, ao segundo: – “não tenho medo da Administração Trump, lamento, mas vou continuar a fazer o que acredito ser a missão da Igreja no mundo de hoje”. Disse-o em reação às infames acusações de Donald Trump, quando aludiu à ingerência americana em países soberanos, dizimando as pessoas e o seu património.
Ora, num tempo em que vemos políticos e governantes a servirem-se da imagem de Jesus Cristo no intuito de tentarem justificar o arbítrio, a violência e os critérios das suas ações, urge estar alerta perante tal abuso. Na certeza, porém, de que são os mesmos que após terem proclamado a laicidade do Estado e proibiram os símbolos cristãos nas instituições públicas dos respetivos países, se fazem de dotados da inspiração Divina. O que me leva a pensar que o Cardeal, Robert Francis Prevost, estará não só com redobrada atenção a tais movimentações, ou fenómenos, como pronto a condenar, sem peias, quem usa o cristianismo para fins obscuros.
A meu ver, na sua caminhada por África, o Santo Padre seguiu os ensinamentos dos Sagrados Evangelhos, chamando a atenção para os pobres e oprimidos no mundo e execrar os tiranos.