“As boas notícias não são notícias. As boas notícias quase nunca são relatadas. Por isso, as notícias são quase sempre más”. A afirmação de Hans Rosling, médico e principal autor de Factfulness – Factualidade [1], tem, todavia, algumas excepções. Por vezes, as boas notícias também são apresentadas.
O diário francês Libération apresenta anualmente um número intitulado Le Libé des solutions. Trata-se de uma iniciativa feita em parceria com os Reporters d’Espoirs, uma associação lançada em 2004 na UNESCO, em Paris, que se tem dedicado àquilo que designa “jornalismo de soluções”. Trata-se de um modelo de jornalismo que visa promover a esperança tendo em conta três preocupações. Deve ser útil, o que implica difundir o conhecimento, esclarecer, desenvolver o pensamento crítico, ajudar a ultrapassar as contrariedades e permitir projectar o futuro. Deve reflectir o mundo na sua complexidade, feita de obstáculos e soluções, dificuldades e resiliência, possibilitando recuperar o poder sobre os acontecimentos “para seguir em frente, em vez de nos incitar ao encerramento em nós próprios e ao derrotismo”. Deve incentivar a acção, dando a conhecer iniciativas que funcionam e fornecem respostas concretas – e, eventualmente, replicáveis – a problemas económicos, sociais, ecológicos e culturais.
O diário Corriere della Sera também edita um espaço intitulado Buone Notizie, que o jornalista Giangiacomo Schiavi diz ser “uma comunidade contra a monotonia das notícias negativas e o sentimento de desconfiança que nos assombra”. Para Giangiacomo Schiavi, “o jornalismo não é apenas uma lista de queixas, é também um convite a que nos revejamos em exemplos e valores capazes de indicar melhor do que o PIB o civismo e a vitalidade do país”.
Além das Buone Notizie do Corriere della Sera, há também boas notícias em outros jornais. O diário espanhol El País tem o Correo sí deseado, o jornal francês Le Monde apresenta Le « fil good » du Monde, e o jornal The New York Times oferece The Week in Good News. Os âmbitos e os formatos variam, os objectivos são mais ou menos ambiciosos, mas todos os jornais têm uma preocupação idêntica: oferecer ao leitor um ponto de fuga para um quotidiano sempre sobrecarregado de más notícias.
O jornal El País, que no domingo passado assinalou o seu quinquagésimo aniversário, pediu aos leitores sugestões de títulos que gostariam de poder ler. As respostas terão sido abundantes e alguns exemplos foram divulgados na quarta-feira, dia 6.
O Correo sí deseado referiu que, entre os grandes temas que predominaram, se encontrava, por exemplo, o desejo de que “os políticos e as instituições cheguem a acordos e reduzam o clima de tensão”; e o anseio de que surjam “os avanços científicos que permitam a cura ou tratamento de doenças”.
Os títulos citados dão conta de desejos assaz ambiciosos:
“Gaza já é um país livre. Israel retirou-se para as suas terras”;
“Todos se colocaram de acordo para reverter as mudanças climáticas”;
“Medicamentos menos agressivos e mais eficazes para as doenças mentais”;
“Chega ao fim a exploração animal”;
“A ONU tem autoridade global sobre todos os países e organizações”;
“Os políticos mal-educados e desrespeitosos perderão os seus mandatos”;
“Foi descoberto um tratamento eficaz para curar e reverter os sintomas da Esclerose Lateral Amiotrófica”;
“A juventude recupera o acesso à habitação: alugar e comprar deixa de ser um privilégio”;
“O cancro tornou-se finalmente uma doença curável, prevenível e inclusive erradicável”;
“O mundo erradica a fome: um desenvolvimento global sem precedentes”.
Esperemos que, mais cedo do que tarde, estes títulos possam ir sendo amplamente divulgados.
[1] Temas e Debates, 2019