twitter

O verdadeiro bloqueio da produtividade portuguesa

 

 

Portugal não precisa apenas de rever leis laborais; precisa de uma revolução empresarial. Sem exigência de qualificações mínimas para gerir empresas, continuaremos presos a PME’s frágeis, pouco produtivas e avessas à fusão. A competitividade não se constrói precarizando trabalho, mas qualificando liderança, ganhando escala e inovando. Perante os desafios colocados à economia portuguesa e ao tecido empresarial – nomeadamente a necessidade de inovar, competir e elevar os níveis de produtividade – torna-se evidente que a fragilidade estrutural de parte significativa dos empresários constitui um entrave relevante ao desenvolvimento económico. O facto de cerca de metade dos gestores portugueses possuir apenas o ensino secundário ou menos limita a capacidade de adaptação estratégica, de incorporação tecnológica e de transformação organizacional das empresas. O debate público tende, contudo, a centrar-se sobretudo na revisão do Código do Trabalho, frequentemente apresentado por sectores empresariais como um obstáculo à produtividade. A excessiva fragmentação do mercado, marcada pela predominância de micro e pequenas empresas pouco capitalizadas, pouco inovadoras e frequentemente resistentes a processos de fusão, cooperação ou ganho de escala, reduz a capacidade competitiva do país. Muitas destas empresas revelam limitações na gestão, na internacionalização, na digitalização e na adoção de modelos organizacionais mais eficientes. Neste contexto, a automação cognitiva e a inteligência artificial introduzem um novo fator de pressão. Estas tecnologias exigem lideranças empresariais mais qualificadas, capazes de compreender processos de transformação digital, investir em inovação e requalificar trabalhadores. Sem essa capacidade, existe o risco de a tecnologia não servir para aumentar produtividade e valor acrescentado, mas apenas para intensificar precariedade, compressão salarial e transferência de responsabilidades para os trabalhadores. Sem enfrentar estas fragilidades estruturais, será difícil aumentar de forma sustentada a competitividade da economia portuguesa, independentemente das alterações ao enquadramento laboral. Carlos Costa, economista, ex-Governador do Banco de Portugal, assina um longo artigo, no jornal Eco “O tecido produtivo português perante a automação cognitiva”, onde coloca várias questões pertinentes: “A economia portuguesa apresenta um diagnóstico estrutural conhecido – especialização nas gamas média e média-baixa em termos de valor acrescentado, insuficiência de escolaridade e desarticulação entre sistema de formação e sistema produtivo. A Inteligência Artificial torna este diagnóstico mais urgente e acrescenta-lhe quatro riscos que o meu contributo de 1999 não contemplava integralmente: O primeiro é a compressão do horizonte de adaptação: a evidência disponível sugere que Portugal tem menos tempo para construir as condições institucionais necessárias do que as análises convencionais assumiam, com efeitos de antecipação no mercado de trabalho já mensuráveis; o segundo é a polarização interna no universo das PME: entre as empresas com acesso aos Centros Tecnológicos e as que ficam fora desses ecossistemas, o fosso tecnológico tende a alargar-se – e com ele a desigualdade salarial e territorial; terceiro é o desfasamento entre adoção e governação da IA no sistema de formação: o CNIPES (2026) documenta que o próprio sistema de ensino superior está em fase de transição incompleta – apenas 14,7% das instituições têm políticas de IA em prática, enquanto 42,6% não dispõem de qualquer enquadramento formal; o quarto é a dependência infraestrutural e a perda de soberania cognitiva: se a inovação incremental aumentada por IA for feita sem controlo sobre a infraestrutura que a sustenta, Portugal torna-se operador qualificado de tecnologia alheia, transferindo sistematicamente o valor acrescentado para fora do sistema nacional.



 

Paulo Sousa

Paulo Sousa

10 maio 2026