Porque é que temos tanta dificuldade em admitir que podemos estar errados? Caros leitores, começo por sublinhar algo justo e merecido. O Diário do Minho assinalou recentemente 107 anos, um percurso de mais de um século marcado pela atenção aos factos, pelo cuidado com a informação e por um compromisso constante com a verdade. Num tempo em que tudo circula depressa e em que tantas vezes se opina antes de se verificar, este tipo de trabalho não só se mantém atual como se torna ainda mais necessário, merecendo por isso um claro reconhecimento e agradecimento.
É precisamente por isso que esta pergunta faz sentido, porque, num mundo onde todos temos opinião sobre quase tudo, procurar a verdade implica aceitar a possibilidade de estarmos errados, algo que nos retira o conforto e a segurança de sentir que temos razão.
Aqui no café, enquanto escrevo este artigo, dou por mim a pensar nos nossos leitores e numa frase milenar que muitos certamente recordam, a de Sócrates, “só sei que nada sei”, que traduz bem uma atitude de humildade perante a sabedoria. No fundo, reconhecer o que não sabemos pode ser o primeiro passo para compreender melhor, algo que contrasta com aquilo que hoje tantas vezes fazemos, quando falamos de tudo, opinamos sobre tudo e raramente paramos para perguntar a nós próprios se sabemos realmente o suficiente sobre aquilo que estamos a defender. Nesse mesmo sentido, René Descartes insistia que era preciso duvidar para pensar com rigor. O seu “penso, logo existo” nasce desse exercício de dúvida. E talvez aqui valha a pena lembrar outra ideia, desta vez de Bertrand Russell, quando dizia que “o problema do mundo é que os estúpidos estão cheios de certezas e os inteligentes cheios de dúvidas”. Isto dá que pensar, porque, no fundo, pensar bem não é ter certezas, é saber questioná-las.
A propósito disto, permitam-me uma nota pessoal, porque Arthur Schopenhauer é um dos meus filósofos preferidos para pensar várias questões. No seu livro A Arte de Ter Sempre Razão, mostra de forma desconcertante como usamos argumentos não tanto para procurar a verdade, mas para ganhar discussões. E isto vê-se no dia a dia, basta pensar numa discussão em que alguém desvia o assunto, exagera um ponto ou interrompe, não porque quer saber mais, mas apenas para não perder. Se quisermos um exemplo mais marcante, basta lembrar Galileu Galilei. Quando defendeu que a Terra girava em torno do Sol, não enfrentou apenas um problema científico, mas a dificuldade de toda uma época e de uma comunidade científica em abandonar um paradigma falhado.
Constato isso mesmo aqui e agora, no meio do barulho do café e das conversas à minha volta, onde se percebe como isto faz parte do nosso dia a dia. Numa discussão, estamos muitas vezes mais preocupados em responder do que em ouvir, em reagir do que em pensar, e é aí que se vê como nos custa dar razão ao outro e a dificuldade que temos em lidar com a verdade.
No fundo, percebemos bem como esta necessidade de ter razão se torna mais exigente do que parece. Não é apenas ter opinião, é saber fazer uma pausa, quase à maneira dos estoicos, antes de responder, é perguntar “e se eu estiver enganado?”, é conseguir dizer “tens razão” sem sentir que isso nos possa tornar mais frágeis.
E, voltando ao início, percebe-se ainda melhor o valor do trabalho do Diário do Minho. Ao longo de mais de um século, tornou-se uma referência na região precisamente por isso, por informar de forma clara e consistente e por dar aos leitores uma base sólida para compreender o que se passa à sua volta.
Fica então a pergunta para os nossos leitores, para levarem convosco ao longo da semana e irem pensando nela:
- Quando estamos tão seguros de uma ideia, queremos mesmo saber ou apenas ter razão?