Como as perguntas que se fazem numa entrevista ajudam a perceber se o candidato a um emprego ou a uma função é capaz para exercer um ou outra, também o texto que agora começa poderá ajudar a reflectir se temos ou não um Governo a sério, competente, diligente e em quem podemos depositar as nossas esperanças. Mas, será cada um dos leitores a retirar as suas próprias conclusões. Uma vida sem esperança não faz sentido e é, além do mais, desesperador.
Será que temos um Governo que acompanha os cidadãos nas suas dificuldades do quotidiano ou é tão-só uma organização que existe para satisfazer os interesses de uma classe ou de um partido?
Podem os cidadãos testemunhar os bons serviços prestados, designadamente, aos mais desfavorecidos, ou a existência de uma elite que se auto-protege? Caminha ao lado do povo, sentindo as suas dificuldades ou aproveita-se delas para criar um discurso populista inconsequente?
Temos um Governo cumpridor com a sua palavra? Reconhecemos em cada um dos ministros e de outros membros do Executivo um Governo confiante e confiável? Acreditamos no caminho que está a seguir e que nos vai levar a bom porto? Cada novo Governo oferece uma verdadeira alternativa à desilusão que pode ter atravessado a sociedade no período anterior?
O exercício político feito de forma egoísta e auto-suficiente, à margem do mandato recebido é intolerável e é, normalmente, castigado pelos eleitores. O problema acontece quando a alternativa também não convence. E o pior é que a abstenção, o voto em branco e o voto nulo não elegem ninguém.
Não há maior expressão de solidariedade do que se entregar na sua missão pública às causas e anseios do seu povo. Quando concorrem, os políticos têm esse espírito solidário na sua candidatura? O comportamento dos que nos conduzem inspiram-nos? Qual é a lógica daqueles que nos governam, a da entrega ou a do egoísmo, do orgulho ou amor-próprio?
Podemos e devemos conversar sobre tudo o que tem acontecido. Mas, se o nosso pensamento é sectário, não conseguimos ver o que se faz de bom. Ficamos impedidos de dar boa nota do que um Governo formado por personalidades de outro partido realiza em prol de todos. Será que não crucificamos alguém apenas porque quem está no poder não é dos nossos?
Reconhecemos competência, idoneidade aos nossos superiores/dirigentes? Serão capazes de nos dar uma nova vida? E nós, acreditamos o suficiente para aceitarmos um ou outro desafio que eles nos façam para bem de todos?
Não precisamos de milagres e prodígios – são apenas homens e mulheres, não anjos ou deuses – mas apenas que sejam pessoas em quem possamos confiar, nos dêem garantias disso e nos respeitem.
2. Na próxima Sexta-Feira comemora-se mais um aniversário da Revolução de Abril que trouxe a democracia a Portugal. Estou em crer que qualquer português admitirá que foi um acontecimento de inigualável coragem dos promotores e de uma importância capital para a liberdade dos cidadãos. Muitas vezes, consigo dizer o que digo, ainda que o procure fazer sempre com o maior respeito, graças a esse marco histórico que, pessoalmente, recordo com um pouco de saudade. Tem a ver com algo do que disse na crónica da semana passada: a fibra dos políticos que hoje temos e que elegemos é bem diferente da expressada pelos que consolidaram o movimento revolucionário iniciado em 1974 e nos fizeram acreditar num futuro melhor. Acreditava-se mais, a confiança e a segurança transmitidas eram outras.
Faço votos para que a democracia tenha uma expressão prática mais condizente com a Constituição da República e os ideais de Abril nunca se percam nos corredores de conveniências individualistas.