É verdade que, segundo a Escritura, Jesus nunca riu. Pelo contrário, segundo a mesma Escritura, Jesus chorou e por três vezes.
Chorou sobre Jerusalém (cf. Lc 19, 41). Chorou quando Lázaro morreu (cf. Jo 11, 35). E chorou perante a iminência da Sua morte (cf. Heb 5, 7).
Estes dados parecem respaldados na célebre carta de Públio Lêntulo ao imperador Tibério.
Na descrição de Jesus, «diz-se que que nunca ninguém O viu rir, mas antes chorar». O que não contendia com o reconhecimento de que era uma pessoa «alegre, embora salvaguardando sempre alguma gravidade».
Entretanto, na literatura apócrifa, há informações que aludem explicitamente ao riso de Jesus.
O chamado «Evangelho de Judas» conta que Jesus, ao encontrar-Se com os discípulos, “riu-Se”». Estes, advertindo um eventual escárnio, inquiriram o Mestre que os tranquilizou: «Não estou a “rir-Me” de vós».
Quando os mesmos discípulos Lhe perguntavam sobre o que seria da geração à qual Se dirigia, Jesus «riu-Se» antes de responder.
Ao ouvir Judas assegurar que «tivera uma grande visão, Jesus também “Se riu”».
Do denominado «Evangelho de Filipe»: «Disse o Senhor que alguns entraram no Reino de Deus, “rindo”»
E quando Ele «entrou na água do batismo, saiu dela e “riu-Se” de tudo o que existe no mundo».
No «Evangelho da Infância», de Tomé, «estando uma altura os judeus a dar conselhos a Zaqueu, o Menino “riu-Se” muito».
Passando Jesus pela praça de uma cidade, viu um mestre a ensinar. De repente, doze pardais caíram no seu colo. «Jesus, ao ver isto, achou graça, parou o “riu-Se”». Mas o mestre ficou muito zangado.
Intrigante é o «Apocalipse Copta de Pedro», que «via o Salvador na Cruz alegre e “ridente”».
Perfilhando a doutrina dualista de um Cristo celeste e de um Jesus sofredor, defendia que Cristo não podia padecer. Por isso, «separou-Se» de Jesus na paixão.
Assim sendo, «Aquele que vês alegre e “risonho” na Cruz é o Cristo vivo. Aquele em cujas mãos e pés pregam os cravos é só uma imagem débil e mortal».
Este livro apresenta, portanto, um Cristo impassível junto da Cruz «rindo» e não sofrendo. Ao mesmo tempo, na Cruz, Jesus padecia e morria.
Não obstante estes episódios estarem feridos de credibilidade, importa ter presente que o sorriso não foi alheio à vida de Jesus. E o riso não deixou de receber tratamento teológico.
Como esquecer a notável metáfora do Mestre Eckhart para ilustrar a unidade trinitária? Segundo ele, «o Pai ri para o Filho e o Filho ri para o Pai, e o riso gera prazer, e o prazer gera alegria, e a alegria gera amor».
Nesta noite do mundo, oremos com São Tomás Moro, que foi assassinado em 1535.
«Senhor, dá-me sentido de humor, dá-me a graça de me distrair com um gracejo, para que eu possa ter um pouco de alegria e comunicá-la aos outros»!