Quando falamos de Páscoa, pensamos na mais importante festa da fé cristã, mas também no seu caráter móvel e na influência que, por isso mesmo, exerce sobre diversas outras datas e festas do calendário cristão: a Quarta-Feira de Cinzas/início da Quaresma (40 dias antes da Páscoa), a Ascensão (40 dias depois), o Pentecostes (50 dias depois), a Santíssima Trindade (Domingo depois do Pentecostes) e o Corpo de Deus (Quinta-feira depois da Santíssima Trindade).
Por outro lado, também nos vem à mente as discrepâncias entre as datas da Páscoa judaica, da Páscoa católica e protestante e ainda da Páscoa ortodoxa. Neste ano, por exemplo, os judeus celebraram a Pessach1 no passado dia 2 de abril, os cristãos católicos e protestantes celebraram a Páscoa três dias depois (5 de abril) e os cristãos ortodoxos celebraram-na ontem, dia 12. Apesar de estas datas não serem arbitrárias, a pergunta impõe-se: Por que motivo tanta discrepância? É uma questão de luas e calendários que passamos a apresentar e a explicar, com a brevidade que se impõe.
A Páscoa judaica celebra-se sempre a 14/152 do mês de Nisan (Abib)3, seja qual for o dia da semana. Dado que o calendário judaico é diferente do nosso (gregoriano), a Páscoa judaica não tem, para nós, data fixa. Neste ano, celebrou-se no passado dia 2 (tendo começado com o pôr do sol do dia 1) e, no próximo ano, celebrar-se-á no dia 22 de abril.
A Páscoa católica e protestante celebra-se no domingo após a primeira lua cheia depois do início da Primavera. Contudo, não foi sempre assim! Nos primeiros tempos do cristianismo, havia, a este propósito, muita confusão: na Ásia Menor, seguia-se o calendário judaico e celebrava-se a Páscoa no dia 14 de Nisan4; na tradição romana e ocidental, celebrava-se sempre num domingo, por ser o dia associado à ressurreição de Jesus Cristo, em data calculada, mas sempre após a Páscoa judaica.
No meio desta confusão (comunidades próximas celebravam a Páscoa em dias au até semanas diferentes), o Concílio de Niceia, em 325, decidiu que a Páscoa passasse a ser celebrada no mesmo dia por toda as comunidades cristãs, sempre num domingo, e não devia depender do calendário judaico. Contudo, permanecia uma dificuldade: como calcular a data? Depois de muita discussão e de cálculos astronómicos complicados que permitiram prever as luas cheias, a solução foi encontrada quando, por volta de 525 d. C., Dionísio, o Pequeno, introduziu tabelas pascais e ajudou a unificar o cálculo no Ocidente.
Assim se chegou à regra clássica de que a Páscoa devia celebrar-se no primeiro domingo após a primeira lua cheia do equinócio da primavera. Tendo o equinócio sido fixado no dia 21 de março5, a Páscoa podia variar entre 22 de março6 e 25 de abril. Quando se percebeu que o calendário juliano apresentava um erro de 11 minutos por ano, o Papa Gregório XIII, em 1582, corrigiu o erro acumulado e ajustou o cálculo da Páscoa, mantendo a referida regra clássica.
No mundo ortodoxo (Igrejas cristãs do Oriente), manteve-se o calendário juliano e, por isso, a Páscoa ocorre entre o início de abril e o início de maio, quase sempre numa data diferente da Páscoa católica/protestante. Por sinal, no ano passado (2025), quando se celebrava os 1700 anos do Concílio de Niceia, a data coincidiu (20 de abril). A propósito, quando convocou o Jubileu da Esperança (9 de maio de 2024), o Papa Francisco deixou o apelo para que os cristãos encontrem “uma data comum para a Páscoa” (Spes non confundit, nº 17). E, num encontro com o grupo “Páscoa Together 2025”, a 19 de setembro de 2024, afirmou que a celebração comum “não deve ser exceção, mas normalidade”, encorajando os esforços concretos de convergência. Repetiu o apelo em 25 de Janeiro de 2025, por altura do encerramento da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos.
No dia 31 de março de 2024, Bartolomeu I, Patriarca de Constantinopla, afirmou que a separação das datas da Páscoa entre Oriente e Ocidente é um “escândalo” e deixou um forte apelo no sentido de se encontrar uma data comum. Reunidas as condições para tal, penso que vai sendo tempo de, em mundo cristão, se avançar nesse sentido. Seria mais um passo significativo no processo lento e moroso da unidade dos cristãos.
1 Termo hebraico para designar a Páscoa.
2 O primeiro dia da festa era precedido pelo sacrifício do cordeiro pascal, no dia anterior (14 de Nisan), no Templo de Jerusalém, mas o jantar ritual (seder) acontecia já depois do pôr do sol (15 de Nisan), tendo em conta que, em Israel o dia litúrgico começava com o entardecer.
3 O mês de Nisan (antes do cativeiro da Babilónia, chamava-se mês de Abib [espiga]) é o primeiro mês do calendário judaico, que combina ciclos da Lua (meses) com o Sol (anos) e, por isso, é chamado lunissolar.
4 Por essa razão, foram chamados quatordecimanos.
5 Não coincide de todo com o equinócio astronómico real.
6 Para que tal aconteça, é necessário que o dia 21 de março ocorra a um sábado e nele tenha lugar a lua cheia. É tão difícil e raro que só aconteceu em 1818 e só voltará a acontecer em 2285. No dia 25 de abril, aconteceu em 1943 e voltará a acontecer em 2038.