Estamos em pleno período pascal, tempo de redenção, tempo de arrependimento, tempo de perdão.
No frenesim das nossas vidas, temos tendência a esquecer o quão vã é a espuma com que são feitos os nossos dias. Tudo nos parece urgente, importante, inadiável e, na verdade, a maior parte do que nos ocupa não é assim tão importante. Ou melhor, muitas vezes não tem qualquer importância.
E como dói hoje o arrependimento das prioridades das nossas urgências. Naquele domingo 13 de novembro de 2016 o meu pai passou o dia, como era habitual, em nossa casa. Depois do almoço ficou a ver televisão, enquanto eu preparava uma apresentação qualquer em power point que no dia seguinte iria utilizar numa iniciativa qualquer que envolvia um conjunto de alunos de uma escola da nossa região. Qualquer coisa relacionada, talvez, com o comércio eletrónico. Tudo muito urgente e importante como se pode ver. Pouco tempo, pouca atenção dei ao meu pai naquele dia. No dia seguinte, ao início de uma bela manhã de sol, quando dava o seu passeio, o meu pai foi atropelado numa passadeira por um condutor demasiado apressado, demasiado ocupado com uma urgência qualquer, mas muito pouco atento. Aquele atropelamento foi fatal.
Hoje já não posso fazer uma festa na cara do meu pai ou dizer-lhe que gosto muito dele, porque naquele dia, quando o podia fazer estava demasiado ocupado, a fazer algo muito urgente, muito inadiável.
A todos aqueles que neste momento andam a correr de um lado para o outro, naquela pressa tão característica destes tempos que vivemos, em que tudo tem de ser feito à pressa, em que tudo é inadiável, importante e urgente, eu peço para pararem um instante e refletirem se, nesta Páscoa, não será melhor reordenarem as prioridades que colocam nas vossas vidas. O que é verdadeiramente importante para mim? Eis a questão.
Está na hora de declarar o meu amor ao próximo e, em função disso, tirar esta carapaça de assuntos muito importantes com que entorpeço os meus sentidos e fujo da realidade?
Vou então a correr, porque é importante, urgente e inadiável, fazer uma festa na cara do meu pai e conversar sobre aquelas coisas de que ele gosta, mostrando-lhe assim o quão eu gosto dele. Sim, se puderes faz isto nesta Páscoa e ao fazeres uma festa na cara do teu pai lembra-te de mim que já não o posso fazer.