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Por Entre Linhas e Ideias

Será que podemos confiar plenamente nos nossos sentidos? 

Esta semana tive dificuldade em escolher o tema da crónica, até que uma notícia me prendeu a atenção, um aluno com daltonismo apresentou queixa ao Ministério da Educação por se considerar prejudicado num exame nacional, uma vez que as suas limitações visuais não foram devidamente tidas em conta. A partir daí comecei a refletir com mais cuidado sobre a forma como vivemos tão dependentes dos sentidos para dar sentido ao mundo que nos rodeia e para nos situarmos nele. No entanto, essa mesma dependência faz-nos esquecer, muitas vezes, que os sentidos não são iguais para todos nem oferecem um acesso uniforme à realidade.

Há muito que a filosofia nos chama a atenção para a fragilidade dos sentidos. Platão lembrava-nos que podem enganar a alma, levando-nos a tomar por real aquilo que não passa de uma aparência confortável. O problema maior não é errar, mas acreditar, sem hesitação, que estamos certos. Ainda assim, seria redutor olhar para os sentidos apenas como fontes de engano, porque é através deles que nos ligamos ao que há de mais imediato e significativo na nossa experiência.

É muitas vezes nos sentidos, quase sem darmos por isso, que nos reencontramos no meio dos pequenos gestos do dia a dia. O cheiro do pão acabado de cozer pode transportar-nos para lugares ou tempos que julgávamos esquecidos, tal como o sabor de uma sopa feita como só a nossa avó sabia fazer nos aproxima de quem fomos e de onde viemos, ou até o cheiro dos campos que, de forma inesperada, nos devolve a uma memória antiga e familiar.

Mas esta proximidade aos sentidos não nos dispensa de pensar sobre eles com algum cuidado. René Descartes levou a desconfiança ao limite ao admitir que, se os sentidos já nos enganaram uma vez, então talvez não mereçam confiança absoluta. Em contraste, David Hume lembra-nos que não há pensamento sem experiência e que tudo começa nesse contacto sensível com o mundo. É neste ponto que Immanuel Kant propõe um equilíbrio mais exigente ao defender que não conhecemos as coisas como são em si mesmas, mas apenas como nos aparecem através dos sentidos, organizados pela nossa mente.

A este propósito, recordo uma antiga história de um imperador chinês que envia o filho para a floresta para aprender a ouvir. Quando regressa, o jovem descreve os sons mais evidentes, mas o pai pede-lhe que volte, insistindo que ainda não ouviu o essencial. Só então o filho compreende que precisa de escutar o inescrutável, aquilo que não se impõe de imediato. Há aqui uma lição exigente, porque é no silêncio que conseguimos aceder ao que não é óbvio e deixar que o pensamento vá mais fundo, numa verdadeira atenção sobre o próprio pensar.

Curiosamente, esta exigência não é apenas filosófica. Basta pensar em “Alone”, a produção televisiva americana de sobrevivência em cenários naturais implacáveis, onde cada participante depende quase exclusivamente da acuidade dos seus sentidos para sobreviver. Ali, ver melhor, ouvir ao longe, reconhecer cheiros ou interpretar sinais subtis pode fazer a diferença entre resistir ou desistir. Antes de tudo o resto, são os sentidos que nos colocam em relação com o mundo.

Fica então como conclusão um convite simples aos nossos leitores, parar mais vezes para ouvir, ver, saborear, cheirar e tocar o mundo com atenção, sem cair na tentação de desvalorizar os sentidos como se fossem apenas secundários. É através deles que habitamos a realidade e que nos reconhecemos nessa unidade que somos, corpo e mente, inseparáveis na forma como sentimos e pensamos.


 

- E, afinal, que importância damos aos sentidos na construção do nosso próprio eu?

Eugénio Oliveira

Eugénio Oliveira

1 abril 2026