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Saúde com voz

Ao longo dos tempos a medicina desenvolveu-se sob um modelo paternalista. O médico decidia, o doente cumpria. Era assim que se entendia o cuidado: vertical, unilateral, silencioso – uma relação assimétrica.

Hoje, esse paradigma vai cedendo terreno numa sociedade cada mais informada, mais exigente e mais consciente dos seus direitos. Surge, assim, a decisão partilhada, um modelo que resgata o diálogo e devolve protagonismo ao doente, transformando a relação clínica numa verdadeira parceria.

A essência desta abordagem é simples, mas profundamente transformadora: a decisão clínica deve resultar do encontro entre a melhor evidência científica e os valores, preferências e circunstâncias da pessoa que recebe cuidados. Ao conhecimento técnico do profissional alia-se o conhecimento vivido do doente. É desse cruzamento que nasce uma decisão verdadeiramente personalizada, mais ajustada à realidade de cada um.

Os benefícios deste modelo são amplamente demonstrados. A literatura científica demonstra que, quando os pacientes participam ativamente nas escolhas sobre o seu tratamento, aumenta a adesão às terapêuticas, cresce a satisfação com os cuidados recebidos e melhoram, inclusivamente, os resultados clínicos. Acresce que a deliberação conjunta tende a reduzir intervenções desnecessárias, minimizar riscos e promover uma utilização mais eficiente e criteriosa dos recursos de saúde.

Em Portugal, o Serviço Nacional de Saúde tem reforçado este caminho, fazendo eco de um princípio que se tornou símbolo de cidadania em saúde: “Nenhuma decisão deve ser tomada sobre mim, sem mim.”

Este lema não é apenas um ideal; é um direito fundamental. A legislação e as orientações da Direção-Geral da Saúde consagram o valor do consentimento informado, o respeito pelas escolhas individuais e a centralidade da pessoa em todos os processos clínicos.

É certo que a decisão partilhada exige tempo, disponibilidade e compromisso. Informar com clareza, traduzir terminologia técnica para uma linguagem acessível e acolher dúvidas e receios são atos que dignificam o exercício clínico. Do lado dos profissionais, reclama também competências de comunicação, empatia genuína e consciência de que, por detrás de cada decisão, existe uma biografia única - e não apenas uma condição de saúde.

Num momento em que a tecnologia produz diagnósticos em segundos e coloca dados clínicos à distância de um clique, torna-se simultaneamente paradoxal e ainda mais urgente recordar que a saúde se constrói, sobretudo, com confiança, diálogo e escolhas conscientes.

Participar nas decisões não é apenas um direito do doente: é um compromisso partilhado que humaniza a medicina, fortalece o sistema de saúde e nos aproxima de um modelo verdadeiramente centrado na pessoa.

Mário Peixoto

Mário Peixoto

21 março 2026