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Ormuz e a lição esquecida de Afonso de Albuquerque

O estreito de Ormuz continua a ser um dos pontos mais sensíveis da economia mundial, por onde passa uma parte essencial – cerca de 20% – do petróleo global.

Num momento de tensão, envolvendo os Estados Unidos, Israel e o Irão, impõe-se recordar uma antiga lição de geopolítica que remonta ao início da expansão portuguesa no Oriente.

No século XVI, Afonso de Albuquerque, uma das figuras mais notáveis da nossa gesta marítima, compreendeu que o poder não residia na ocupação de vastos territórios, mas no controlo dos pontos de passagem obrigatória do comércio. Um desses pontos é precisamente o estreito de Ormuz, passagem marítima que liga o golfo Pérsico ao golfo de Omã e, através dele, ao Oceano Índico.

Ao conquistar Ormuz e erguer ali uma poderosa fortaleza, em 1515, Afonso de Albuquerque não visava apenas um triunfo militar: procurava, sobretudo, colocar nas mãos de Portugal a chave de uma importantíssima rota comercial que regulava o fluxo de mercadorias entre a Ásia e o Médio Oriente e demais países da bacia mediterrânica, garantindo ao nosso país a capacidade de influenciar o comércio internacional.

Pois bem, cinco séculos volvidos, essa realidade permanece praticamente inalterada. O estreito de Ormuz continua a ser um dos grandes “chokepoints” do sistema económico mundial. Como se está a ver, uma interrupção ou bloqueio neste ponto crítico tem consequências imediatas nos mercados energéticos, podendo desencadear uma crise económica global.

A ironia da história é flagrante: há 500 anos, um pequeno reino europeu antecipou uma estratégia global baseada no controle dos pontos de estrangulamento marítimos; hoje, grandes potências contemporâneas, dotadas da mais sofisticada tecnologia e de poderosíssimos e incomparáveis meios militares, parecem descurar essa mesma lição, acreditando que a força por si só basta. É o caso de Donald Trump e do neoimperialismo americano por ele protagonizado que não percebem ou ignoram a geografia e que o Irão, enquanto senhor de Ormuz, tem reais capacidades de fechar ou bloquear este estreito, com todas as funestas consequências que o facto necessariamente acarretará para a região e para o mundo.

E de pouco vale a Trump ameaçar com novo ataque à ilha de Kharg ou insistir na ideia de escoltar navios, hipóteses que vários especialistas consideram ineficazes e perigosas. Primeiro, porque o petróleo representa metade das exportações do Irão, sendo as restantes feitas por terra; segundo, porque a ameaça aos navios vem da costa e, por isso, seria preciso colocar uma força no terreno, correndo um sério risco de escalada; e, terceiro, porque as escoltas são difíceis de executar em larga escala e seriam perigosas, dada a pouca largura do estreito, o que levaria a um tempo de aviso de ataque muito reduzido.

Paradoxalmente, ante a percepção do seu relativo declínio económico, a luta pelo controlo energético fóssil que parece mover os Estados Unidos para o uso da força – domínio no qual a sua supremacia parece indiscutível –, está a provocar, segundo descreve a Agência Internacional da Energia, “a maior perturbação no abastecimento de petróleo da história”, com consequências para a cadeia de abastecimentos que vão muito para além da energia, o que acaba por atingir os interesses económicos e o prestígio americanos.

É neste quadro que se revela a dimensão do risco estratégico inerente a uma guerra envolvendo directamente o Irão. Ao confrontarem um país que detém uma posição privilegiada sobre o acesso ao golfo Pérsico, os Estados Unidos expuseram-se ao perigo de ver esse ponto crítico transformado em instrumento de pressão geopolítica – o bloqueio do estreito que, mesmo que temporário ou parcial, está a ser suficiente para provocar uma onda de choque nos mercados energéticos internacionais.

A lição de Albuquerque permanece, pois, intacta. Na política internacional, a geografia continua a impor limites e condições que nenhuma superioridade militar pode completamente eliminar. Ignorar essa realidade é correr o risco de descobrir, demasiado tarde, que certos estreitos do mapa são locais decisivos da história.

António Brochado Pedras

António Brochado Pedras

20 março 2026