Desta vez, o título nasceu primeiro do que o texto numa reunião de amigos numa famosa pizzaria do outro lado do Atlântico. Ao inspirador, que foi Álvaro Protasio, juntei a sua proposição ao que escutara do evangelista Lucas (18, 9-14) no mesmo dia e resultou a reflexão que se segue, que nada tem a ver com religião, mas com cidadania e representação democrática.
Do que me lembro do período democrático que vivi, e vivi-o desde 1974, sempre os agentes políticos se culparam do que não ia bem, dos atrasos nas reformas necessárias que o país precisava e de qualquer matéria que servisse os interesses partidários. Quem estava no poder culpava os antecessores e os que atravessavam o deserto na oposição reclamavam mudanças que os próprios não fizeram enquanto governavam.
A situação hoje não mudou na substância, embora tenha mudado no tom. Para pior, com maior desfaçatez e muita cara de pau, como se costuma dizer. Se houvesse alguma coerência e algum pingo de vergonha seria razoável, ao menos, alguma tolerância em relação a quem governe há pouco tempo e mostre, por actos objectivos, que a resposta aos problemas é ou vai ser célere. O que se passa é que a oposição maior procura, quase sempre, fugir à responsabilidade pelo que não foi feito e pelos erros passados em que governou, desacreditando o Executivo em exercício por mera estratégia partidária. Não quero com isto defender o actual Governo. De forma nenhuma. Considero, aliás, que tem tido falhanços crassos sem admitir a menor distracção ou o menor descuido ou a menor incompetência. Desta vez, quero apenas dizer que tal tem sido prática ao longo do tempo, desafiando os princípios de honestidade, coerência e ética que deveriam orientar a actividade política.
Em democracia não vale tudo, não deveria aceitar-se muito do que se faz. A liberdade também deve servir para dar azo à justa apreciação dos factos, tantas vezes subestimados e até distorcidos por mera luta partidária. Quantas vezes o eleitor é confundido e iludido pela mentira fácil e o marketing político! Não será uma forma enviesada de fazer politica quando tal acontece? A política só é boa se for maquiavélica e farisaica ou pode admitir culpa ao jeito do publicano? Será errado ou condenável que um responsável político admita não ter feito bem qualquer empreendimento ou não ter medido bem as consequências de determinada decisão? Será que os eleitores deixarão de acreditar em quem admite culpa no que fez de errado ou ao admitir que não esteve bem em determinada situação? Não creio. Toda a pessoa erra. Costuma até dizer-se que só não erra quem nada faz. Então, por que não trazer para o discurso político alguma coerência e admitir-se, com verdade, os eventuais falhanços? Os políticos não aceitam que falharam e desculpam-se das críticas dizendo que são inverdades as evidências apresentadas pelos adversários. Nem sequer admitem que a culpa possa ser dividida. Isso é fariseísmo e não política.
Infelizmente, há situações que chocam nas várias áreas da governação sem que se ouça dos responsáveis um pedido de desculpas e um emendar de mão que tornaria mais nobre a actividade dos representantes do povo e faria com que este participasse, tanto quanto seria desejável, nos actos eleitorais e fizesse com que aqueles ganhassem uma legitimidade acrescida.
Trazer para a democracia um pouco da confissão do publicano do Evangelho do último Sábado não faria mal a ninguém. Os estadistas não o são de verdade quando "confiam muito em si mesmos [diria até, numa única perspectiva, que é a sua] desprezando os demais". Na verdade, quem exalta as suas próprias capacidades e os seus feitos e não aceita sequer admitir culpas, acabará um dia por ser desmentido pelos seus actos.