As Procissões de Passos começam habitualmente com o Sermão do Pretório1, onde se recorda a presença de Jesus diante de Pilatos, narrada em todos os Evangelhos (Mt 27, 1-2.11-26; Mc 15, 1-5; Lc 23, 1-7.13-25; Jo 18, 28-40). E é bom que seja assim: não apenas para recordar o que se passou no Pretório de Pilatos, mas também para ajudar a refletir sobre o drama dos Pretórios de hoje, visto que, apesar de mudarem as personagens, os problemas são os mesmos.
Ao contrário dos judeus, que “não entraram no edifício para não se contaminarem e poderem celebrar a Páscoa” (Jo 18, 28), nós só a podemos celebrar se antes entrarmos no Pretório, meditarmos no que aí acontece e procurarmos mudar o curso dos acontecimentos. Somos, por isso, convidados a presenciar o drama e até a fazer parte dele: de um lado, está Pilatos, sentado na cadeira do poder; do outro, está Jesus, o acusado, de pé, sem defesa, sem exército. À volta, uma multidão em tumulto que não quer justiça, mas decisões a contento, exigindo que Barrabás seja solto e Jesus crucificado (cfr. Mt 27, 15-26; Mc 15, 6-15; Lc 23, 17-23; Jo 18, 39-40).
Pilatos pergunta, escuta, hesita. Vê a inocência (Lc 23, 4: “Nada encontro de culpável neste homem”), mas teme as autoridades judaicas e a multidão por elas instigada. Sabe o que é justo, mas calcula o que é mais seguro. E assim se cria um estranho combate: de um lado; a verdade que não grita; do outro, o medo que multiplica vozes. No fim, o juiz demite-se das suas responsabilidades, lava as mãos e ousa afirmar: “Estou inocente deste sangue. Isso é convosco” (Mt 27, 24). Pilatos, contudo, não convence, pois que quem lava as mãos da justiça suja-as diante da verdade. Lavar as mãos não foi solução, já que intensificou o problema e adensou a injustiça. Quem tinha poder para absolver não teve coragem para ser justo.
No meio de tudo isto, há uma pergunta que se impõe: Qual é o lugar onde mais facilmente se trai a justiça? As respostas variam, conforme os destinatários: o campo de batalha, onde reina a lei do mais forte; o mercado, onde manda o interesse e o lucro; o palácio, onde o poder governa e, por vezes, esmaga. Mas não será, antes, o Pretório? Porque lá deveria habitar a justiça e, com frequência, habita o medo; deveria falar a verdade e, muitas vezes, fala a conveniência; deveria pesar-se a culpa e, não raro, se pesa a opinião do povo.
Não falamos apenas do Pretório onde Jesus foi julgado, mas desses que levantamos dentro de nós e à nossa volta, onde a tendência é julgar e condenar, ao sabor das circunstâncias e dos critérios de conveniência. É o advogado que, sabendo da verdade, tem que defender o seu cliente; o juiz que a intui, mas não a põe a nu; o pai que a conhece, mas prefere o silêncio para evitar o conflito; o governante que sabe o que é justo, mas escolhe o que é conveniente; o amigo que reconhece a inocência, mas não a defende para não perder a aprovação dos outros. Assim se repete todo os dias, na nossa história, o drama do Pretório. Porque o maior inimigo da justiça não é a ignorância, é a fraqueza; não é não saber o que é justo, é não ousar fazê-lo.
E assim o Pretório de Pilatos repete-se nos tribunais que julgam mal ou não o fazem a tempo; na praça pública ou nas mesas dos cafés que testemunham o nosso silêncio perante afirmações e acusações sem fundamento. Repete-se no trabalho, quando optamos pelo fácil, em vez do justo; na família, quando julgamos sem ouvir; e na consciência, quando sabemos o bem e hesitamos em fazê-lo.
Talvez alguém diga: “Mas o ser humano é fraco e a pressão do mundo é grande.” É verdade! A multidão pesa, o poder ameaça, o medo sussurra. Mas que valor tem um juiz que teme a multidão? E que valor tem uma consciência que teme a verdade? O mundo sugere que protejamos a reputação, mas Deus ensina-nos a proteger a justiça. O mundo sugere que evitemos problemas, ao passo que a verdade aconselha a que evitemos a injustiça. Entre estas duas vozes se tece a esquizofrenia do coração humano no. drama dos Pretórios de hoje.
No último dia, porém, quando todos os tribunais da terra tiverem desaparecido, restará ainda um Pretório, onde não haverá multidões gritar, nem poderosos a pressionar, nem mãos que se lavem para fugir à responsabilidade. Haverá apenas três coisas: a verdade que não se pode esconder2; a justiça que não se pode evitar3; e Deus que não se pode enganar4.
Bem-aventurados os que, nos Pretórios da vida, escolhem a justiça em vez do medo e a verdade em vez da conveniência. Não precisando de lavar as mãos, porque as terão sempre limpas, reunirão as condições para celebrar a Páscoa.
1 O Pretório era a residência do Pretor e nele se instalava o Governador romano quando se deslocava de Cesareia Marítima, onde vivia, a Jerusalém. A tradição situava-o Torre Antónia (muralhas da cidade de Jerusalém), mas investigações recentes sugerem que ficaria no Palácio de Herodes.
2 Um provérbio popular diz que “a verdade e o azeite vêm sempre ao de cima”.
3 Um dos lemas da justiça é Dura lex, sed lex (“a lei é dura, mas é a lei”).
4 “Não há nenhuma criatura oculta diante dele, mas todas as coisas estão a nu e a descoberto aos olhos daquele a quem devemos prestar contas” (Hb 4, 13).