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Recordando: Tempos de menino

 


 

 


 

Todos os dias, sete dias por semana, chova, dê vento ou o sol brilhe no etéreo azul, faço a minha caminhada higiénica pelas zonas mais rústicas da periferia da minha casa. Logo pela manhã, bem acompanhado, por sinal, percorro os sítios dos meus tempos de menino. A paisagem rural ainda está muito conservada, apresentando, entretanto, algumas áreas já urbanizadas. 

O desmazelo, a inconsciência e o desrespeito pela Natureza de alguns, que vão despejando lixo, qualquer lixo, nas beiras dos caminhos térreos, não é nada digno de ser visto e merece o meu veemente repúdio. Esse lixo, algum perigoso para a saúde, vai-se acumulando naquelas terras que parece ser de ninguém. 

Conforme vou caminhando, vou recordando com saudade as minhas brincadeiras e as minhas tropelias nesses sítios “tão nossos”, onde se faziam. Em cada recanto, há sempre uma história. 


 

1 - Naquele tempo, as brincadeiras ao ar livre e ao sol e em contacto permanente com a Natureza tinham um sabor especial e um lugar de destaque no dia-a-dia da criançada. O Campo da Aviação e as bouças contíguas, carregadas de pinheiros, de carvalhos e de mato agreste, pertenciam por inteiro às crianças. Até as poças de guardar água para a rega, infestadas de limos e de rãs, serviam para dar uns bons e refrescantes mergulhos. Tudo era engraçado e tudo era muito natural. Não havia “medo” de nada.


 

2 - O Campo de Aviação era um amplo espaço de liberdade, de sossego e de recreação só cortado o silêncio pelo roncar das avionetas que amiúde levantavam e aterravam na pista ervada. Os aviadores mantinham uma relação amistosa com a rapaziada. E a rapaziada gostava de se colocar na cauda das avionetas que levantavam para levar com o vento fortíssimo na seus rostos que se formava. Até o “Tio Batata”, o guarda do campo, sempre de apito na boca, se habituara ao movimento da miudagem. Só apitava e com energia, quando a pista era invadida.

A caça aos grilos e aos sardões, a procura de ninhos dos passarinhos que abundavam na zona eram um bom passatempo. Os miúdos, e eram sempre muitos, conheciam todos os pequenos segredos da Natureza. Sabiam como lidar com as lagartas dos pinheiros (processionário), por exemplo. Subiam às árvores com destreza. “Roubavam” a fruta nos campos vizinhos com habilidade. Especializaram-se em atirar pedras aos castanheiros para apanhar as castanhas. Jogavam à bola em qualquer espaço. Brincavam muito e a toda a hora. Tudo era muito divertido e o mundo estava confinado àquele espaço tão vivo, tão aconchegante e tão natural.


 

3 - Vem isto a propósito do novo modelo de socialização e de recreação infantojuvenil. Hoje, os miúdos, não têm estas experiências e nem sabem brincar. Estão carregados de tarefas extra-curriculares e, muitas vezes, sentem-se desacompanhados pelos seus pais devido às horas de trabalho que lhes são exigidos. Por isso, os miúdos estão muito vulneráveis às ofertas cativantes das redes sociais. Estão vulneráveis pelas novas exigências e solicitações da própria dinâmica social, a Insegurança. Os miúdos vivem muito fechados nas suas habitações a jogar jogos de computadores, a ver televisão ou ainda a engendrar tropelias pouco consentâneas para as suas idades e e para as suas maturidades. Comilões insaciáveis das redes sociais entram em situações perigosas e muitas vezes irreversíveis. Vão aparecendo exemplos que expõem o perigo de estarem sós e de não serem vigiados devidamente. O exemplo mais recente foi dado por aquele desafio do consumo de paracetemol por grupos de jovens que entram nesta loucura de ver quem aguenta mais na deglutição de comprimidos. É um sinal evidente da falta de norte, do uso e abuso das redes sociais e da falta de brincadeiras à moda antiga.


 

4 - Neste enquadramento, é preciso conservar e zelar pelos espaços rurais e arborizados que circundam os aglomerados populacionais. É preciso que as autarquias estejam sensíveis para se construírem parques de lazer, para que todos possamos brincar, caminhar, conviver tudo ao ar livre e ao sol e, fundamentalmente, brincar com segurança.

Ainda nesta linha, acredito na promessa do nosso Presidente da Câmara, João Rodrigues, que se propõe construir um grande área de lazer (50 hectares) junto à cidade. Seria uma enorme mais-valia, uma aposta interessante para todos os bracarenses. Vamos, então, à obra, sr. Presidente!

Armindo Oliveira

Armindo Oliveira

15 março 2026