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Maternidades suspensas: quando a sociedade não reconhece o luto

Ao longo da vida, muitas mulheres são confrontadas com perguntas que parecem naturais: “já tens namorado?”, “quando vais casar?”, “quando vais ter filhos?”. E, à medida que os anos passam, surgem também comentários como “olha que a idade está a chegar!”, como se a maternidade tivesse um prazo de validade. Estas perguntas refletem um percurso de vida socialmente esperado, no qual a maternidade continua a ocupar um lugar central na biografia feminina.

Durante muito tempo, a maternidade foi apresentada como um destino quase inevitável para as mulheres. Ser mulher significava, em grande medida, tornar-se mãe. Com as transformações sociais das últimas décadas, nomeadamente a entrada das mulheres no mercado de trabalho e a conquista de maior autonomia, parecia abrir-se espaço para que a maternidade deixasse de ser uma obrigação e passasse a ser uma escolha. No entanto, muitas dessas expectativas sociais permaneceram. Ainda hoje, a maternidade continua a surgir como uma etapa esperada na vida das mulheres.

Mas se a maternidade continua a ser socialmente valorizada, porque é que a perda durante a gravidez permanece tantas vezes silenciosa?

Quando uma criança morre, a dor dos pais é imediatamente reconhecida. Há palavras de conforto, presença coletiva e rituais que ajudam a nomear e partilhar o sofrimento. A sociedade sabe que ali existe uma perda e que existe luto. No entanto, quando a perda acontece durante a gravidez, a reação muitas vezes é diferente. Surgem frases “bem-intencionadas” – “vais ter outro”, “foi melhor agora do que depois”, “Deus quis assim” – que acabam por diminuir o lugar daquela perda.

Este contraste revela um paradoxo: numa sociedade onde a maternidade continua a ser tão valorizada, nem todas as maternidades são reconhecidas da mesma forma. Quando a gravidez se interrompe antes do nascimento, a experiência vivida pela mulher pode ficar num lugar ambíguo. Existiu um bebé esperado, um vínculo criado, uma maternidade sentida, mas socialmente esse lugar nem sempre é plenamente reconhecido.

É neste ponto que muitas mulheres descrevem uma sensação difícil de explicar: a de uma maternidade suspensa. Foram mães na experiência íntima que viveram, mas encontram dificuldade em ver esse lugar reconhecido pelos outros. Entre o que foi vivido e o que é socialmente reconhecido abre-se um espaço de silêncio.

Quando a sociedade não sabe bem como nomear uma perda, o sofrimento não desaparece, apenas se torna mais silencioso. Sem reconhecimento social, o luto pode ser vivido em solidão, muitas vezes acompanhado por sentimentos de incompreensão ou isolamento.

Reconhecer estas perdas não significa estabelecer hierarquias entre sofrimentos. Trata-se, antes, de compreender que o reconhecimento social tem um papel importante na forma como as pessoas conseguem viver e elaborar o luto. Talvez o primeiro passo seja simples: escutar. Permitir que estas histórias sejam contadas sem pressa, sem respostas rápidas ou explicações fáceis. Dar lugar a estas maternidades suspensas é também reconhecer que algumas perdas não são invisíveis por serem menores, mas porque a sociedade ainda não aprendeu totalmente a nomeá-las.

Clarisse Queirós

Clarisse Queirós

13 março 2026