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Por Entre Linhas e Ideias

Que lugar ocupa a mulher na história da humanidade? A propósito do passado dia 8 de março, não quis deixar de partilhar esta reflexão com os leitores do Diário do Minho. Esta data assinala o Dia Internacional da Mulher, um momento que nos convida a olhar com mais atenção para o papel da mulher na nossa história e na nossa vida, mas que tem também para mim um significado pessoal, porque coincide com o meu aniversário. Neste dia celebrei um número redondo, sessenta anos, e talvez por isso este momento me tenha parecido adequado para olhar para trás e recordar pessoas e experiências que nos acompanham ao longo da vida. Venham comigo nesta reflexão e deixem-se também interpelar pelas palavras que aqui partilho.

Esta reflexão, aliás, não é nova para mim. Recordo que, há cerca de quinze anos, em Braga, organizei um café filosófico dedicado ao tema “A Mulher”. A intenção era simples, criar um espaço de diálogo onde as pessoas pudessem pensar em conjunto sobre questões da experiência humana. Afinal, como lembrava Sócrates, “uma vida sem exame não merece ser vivida.”

Se recuarmos ainda mais no tempo, encontramos nos gregos alguns símbolos sobre a importância do feminino. Um deles é o mito da deusa Atena, figura central da mitologia grega. Segundo a tradição, Atena nasceu da cabeça de Zeus, já adulta e armada, representando não apenas a força, mas sobretudo a sabedoria e a prudência. Era considerada protetora das cidades e do conhecimento. Não deixa de ser significativo que os gregos tenham escolhido uma figura feminina para simbolizar a sabedoria.

Ao longo da história, porém, a reflexão filosófica sobre a mulher foi muitas vezes marcada por ambiguidades. Aristóteles, apesar da sua enorme influência na filosofia ocidental, via a mulher de acordo com a visão do mundo do seu tempo, atribuindo-lhe um papel secundário. Já Platão, na República, ousou admitir que mulheres e homens poderiam exercer funções semelhantes na cidade ideal. Ainda assim, a história mostra-nos que as mulheres sempre participaram na construção do conhecimento e da cultura. 

Na Antiguidade encontramos na cidade de Alexandria a figura de Hipátia, filósofa, matemática e professora no século IV. Num mundo dominado por homens, Hipátia ensinava filosofia e ciência numa das cidades mais importantes do seu tempo. A sua morte violenta tornou-se símbolo da intolerância, mas também da coragem intelectual e da liberdade de pensamento.

Séculos mais tarde, outra mulher marcaria profundamente a história da ciência. Marie Curie, pioneira no estudo da radioatividade, tornou-se a primeira pessoa a receber dois Prémios Nobel em áreas científicas diferentes. A sua perseverança abriu caminhos que ainda hoje influenciam a investigação científica. Já no século XX, a filósofa Simone de Beauvoir trouxe nova profundidade à reflexão sobre a condição feminina. No seu livro O Segundo Sexo, publicado em 1949, escreveu uma frase que atravessou gerações: “Não se nasce mulher: torna-se.” Com estas palavras, Beauvoir lembrava-nos que aquilo que entendemos por ser mulher não resulta apenas da natureza, mas também das estruturas sociais e culturais que moldam a vida das pessoas.

Contudo, para além da história, da filosofia ou da ciência, existe também uma dimensão humana nesta reflexão. Todos nós temos mulheres que marcaram as nossas vidas, seja a mãe que nos protegeu, a avó que nos transmitiu sabedoria, a esposa que caminha ao nosso lado, uma tia ou outra figura familiar que nos cuidou e ajudou a crescer. 

Por outro lado, este 8 de março traz-me sempre outra recordação que me acompanha há muitos anos, o Festival da Canção da RTP, que também se realizou por estes dias e voltou a despertar muitas lembranças entre os portugueses. Para várias gerações, esta época do ano ficou associada a vozes e canções da nossa memória coletiva. Entre elas destacam-se mulheres que marcaram o festival e a música portuguesa, como Simone de Oliveira, Alexandra, Manuela Bravo, Maria Guinot, Dulce Pontes, Dina, Madalena Iglésias ou, mais recentemente, Maro.

Assim, entre mitos antigos, figuras históricas e memórias pessoais, percebemos que a presença das mulheres nunca foi marginal na construção da nossa cultura e da nossa sociedade. Pelo contrário, muitas vezes foi decisiva. 

Talvez por isso, ao chegar aos sessenta anos, esta pergunta me pareça ainda mais atual e deixo aos leitores este convite simples:


 

- Que história estamos hoje a ajudar a escrever para as mulheres do futuro?

Eugénio Oliveira

Eugénio Oliveira

11 março 2026