O primeiro elogio que se deve fazer à revista da Escola Secundária de Amares é para lhe gabar a qualidade, sempre excelente, do conteúdo e da forma dos seus diversos números. É um elogio óbvio. Estamos, de facto, perante uma das melhores publicações efectuadas em estabelecimentos de ensino portugueses. Mas talvez valha a pena sublinhar outra e não menos significativa razão de apreço por esta revista: ela é a demonstração de uma invulgar perseverança.
Quem conhece um pouco da história dos jornais e revistas escolares sabe que, por trás do êxito de uma publicação escolar, está, quase sempre, uma pessoa – às vezes, duas ou três – que teima em a editar. Quando essa obstinação esmorece, tudo termina. Não faltam as excepções, mas é comum o jornal ou a revista terem vidas curtas. As razões são abundantes: os responsáveis pelo empreendimento cansam-se ou desanimam, zangam-se, mudam de escola; os alunos não se interessam; os outros professores não colaboram; a direcção não apoia ou dificulta o trabalho; os custos financeiros são incomportáveis; um apoio prometido falhou; o tempo é sempre pouco.
Uma revista durar 25 anos – e durar 25 anos com a mesma equipa – é algo da ordem do miraculoso. O trabalho dirigido por Jorge Brandão Carvalho, professor bibliotecário, com a colaboração constante de Ana Forte e Cristina Bastos, é, pois, exemplar. Até na circunstância de a revista da Biblioteca da Escola Secundária de Amares ser feita sempre na mesma gráfica – a Graficamares – se revela uma constância modelar. A perseverança ou a teimosia podem nem sempre ser virtudes, mas neste caso são.
“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, assim se intitula o número recentemente apresentado, que cumpre uma dupla função: evocar Luís Vaz de Camões, por altura do 500.º aniversário do seu nascimento, e coligir algum do material publicado ao longo dos anos. A cada ano correspondeu um tema. Foram sempre assaz diversificados. Exemplos: Identidades, Memórias, Caminhos, Margens, Instantes, 100 Máscaras, Intermitências. Às vezes, impuseram-se homenagens, designadamente a figuras que nasceram ou viveram em Amares, como António Variações e Francisco de Sá de Miranda, assinalando os 25 anos da morte do primeiro e 450 anos do nascimento do segundo. Os 50 anos do 25 de Abril também foram devidamente celebrados com o número sobre a liberdade.
O editorial, que lembra o longo caminho percorrido, refere os propósitos que a criação da revista permitiu atingir: “criar um espaço aberto à comunidade, que fosse o ponto de interseção de toda a dinâmica da Biblioteca e garantir que muitos trabalhos (escritos, artísticos, fotográficos) produzidos pelos alunos fossem conservados. No frenesim do quotidiano das escolas, vão-se perdendo, muitas vezes, registos – ficção, poesia, ensaio, ilustração, fotografia – que, embora triviais, são importantes traços do percurso escolar dos nossos estudantes. A função destas edições foi, deste modo, preservar estas marcas para memória futura. Por fim, mas não menos importante, desejávamos, sem pretensiosismos, que esta fosse uma revista literária, de promoção, na comunidade educativa, da leitura, dos livros, dos autores e da literatura.”
Neste empreendimento, que envolveu alunos e professores do Agrupamento de Escolas de Amares, sobretudo da Escola Secundária, assim como convidados ilustres, a poesia, a ficção e o ensaio, como no editorial também se recorda, cruzam-se com outras linguagens “menos óbvias” como “a pintura, a ilustração, a música, o vídeo e a fotografia, o teatro, a dança e as artes performativas”. E cruzam-se eloquentemente.
Para celebrar os 50 anos da revista da Escola Secundária de Amares, apenas faltam 25 anos.