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A coragem de desligar

Há um equívoco semântico que, de tão repetido, se tornou uma cegueira ontológica. Habituámo-nos a chamar “redes sociais” às plataformas digitais – Facebook, Instagram, TikTok – como se a socialidade fosse uma invenção do Vale do Silício. É urgente, por higiene intelectual e sobrevivência antropológica, denunciar esta apropriação indevida. As verdadeiras redes sociais, as “clássicas”, são anteriores à eletricidade: são a família, a mesa do café, a associação de trabalhadores, a paróquia, a equipa desportiva, a vizinhança. Estas são as redes que sustentam a vida; as outras, as que nos consomem nos ecrãs, são, com rigorosa propriedade, “redes sócio-digitais”. E a diferença entre ambas não é de grau, é de natureza.

Nas redes sociais clássicas, a unidade de medida é a presença. A interação é mediada pela presença dos corpos, pela vulnerabilidade do rosto e pela imprevisibilidade do encontro. Nelas, o tempo não é algorítmico, mas humano; o silêncio não é uma falha de conexão, mas uma condição de escuta. Pelo contrário, nas redes sócio-digitais, a unidade de medida é a atenção capturada. Não somos cidadãos nem sequer utilizadores; somos a matéria-prima de uma arquitetura extrativista desenhada para fragmentar a cognição e mercantilizar a intimidade. O que ali ocorre não é comunidade, é conectividade; não é diálogo, é, muitas vezes, monólogo partilhado em câmaras de eco.

A defesa das redes sociais «clássicas» não é um exercício de nostalgia lúdica, mas um imperativo de saúde pública e espiritual. É na fricção do real, no atrito das relações não mediadas por ecrãs, que a empatia se treina e o carácter se forja. É impossível “bloquear” a um vizinho incómodo, é essa impossibilidade que nos obriga à civilidade e à negociação. O digital, ao oferecer-nos um mundo sem atrito, onde o outro pode ser silenciado com um clique, atrofia a nossa musculatura moral.

Perante esta hegemonia da conexão perpétua, que dissolve a fronteira entre o trabalho e o lazer, e o público e o privado, impõe-se a recuperação de um dispositivo ancestral de resistência: o Shabat. Não o entendo aqui apenas na sua dimensão cultual estrita, mas como uma categoria antropológica universal. O Shabat não é mero descanso para recarregar baterias produtivas, isso seria funcionalismo. O Shabat é a interrupção deliberada da lógica utilitária. É o tempo onde dizemos “basta” à tirania do fazer e do aparecer, para reivindicar a dignidade do ser.

Um Shabat digital é um tempo sagrado, diário ou semanal, inegociável, de desconexão total, à semelhança do Shabat judaico. Não como um “detox”, mas como um ato político e espiritual de soberania. Desligar o router e silenciar o smartphone é, hoje, a forma mais radical de afirmar que não somos escravos do algoritmo.

Neste tempo de descanso, o que acontece é o milagre da restituição da realidade. A ansiedade da notificação dá lugar ao tédio, e do tédio nasce a criatividade e a contemplação. O olhar, viciado na retroiluminação dos píxeis, reaprende a profundidade de campo da paisagem e do rosto do outro. A conversa deixa de ser telegráfica e recupera as suas pausas, as suas hesitações, a sua verdade. Voltamos a habitar as redes sociais clássicas: o almoço de domingo onde se discute sem filtros, o passeio onde se caminha sem documentar, o livro que se lê sem interrupções.

A qualidade de vida, no século XXI, medir-se-á pela capacidade de nos desconectarmos. Defender as redes sociais clássicas em detrimento das sócio-digitais é defender a primazia da carne sobre o código e da comunhão sobre a conexão. É reconhecer que a vida acontece quando levantamos os olhos do ecrã. O Shabat digital é, por isso, a condição de possibilidade para que a técnica continue a ser uma ferramenta nas nossas mãos, e não o ídolo que devora o nosso tempo e a nossa alma.

Luís M. Figueiredo Rodrigues

Luís M. Figueiredo Rodrigues

7 março 2026