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Paradas que não protegem

Quem necessitou de se dirigir ao centro da cidade de Braga na última Sexta-Feira talvez tivesse hesitado fazê-lo depois de visualizar uma grande quantidade de elementos de forças militarizadas e ter verificado haver três canhões apontados no sentido Praça da República – Largo da Senhora-a-Branca. Felizmente, não haveria qualquer perigo, não era nenhuma operação preparatória para proteger a cidade de um qualquer ataque.


 

Fui dos que não acompanhei as notícias que explicariam o aparato de diversas fardas, com os militares a ensaiar o que haveria de acontecer no dia seguinte: uma parada para homenagear o Presidente da República que se prepara para deixar o cargo. O trânsito ficou condicionado por diversas vezes, ao que parece e de acordo com relatos que acompanhei, sem aviso suficiente, nem mesmo aos motoristas dos Transportes Urbanos de Braga. Acompanhei a preocupação dos dois profissionais que conduziram as viaturas de ida para a cidade e de volta a casa.


 

Pelo que li num dos jornais da região, estiveram presentes cerca de setecentos militares, devidamente fardados e armados e as correspondentes viaturas para os transportar, para além de diversos caças F-16 que se mostraram nos céus de Braga e outros concelhos por onde passaram. Ignoro de onde levantaram, mas talvez tenham sobrevoado até os concelhos mais afectados pelo carrossel de tempestades que assolaram o país há várias semanas que, como é sabido, provocaram naqueles avultados prejuízos, estando os responsáveis dos mesmos ainda a lutar com bastante esforço e preocupação, desde então, por recuperar o que ficou destruído e foi muito: estradas intransitáveis, estragos de todo o tipo por todo o lado, habitações sem telhados, pessoas isoladas e desalojadas, um verdadeiro ambiente de guerra em inúmeras geografias.


 

Há festas caras, há festas que não deveriam acontecer, sobretudo, em circunstâncias de contraste como as que existem. Ainda que o ainda Presidente tenha o direito e até mereça sair pela porta da frente, há homenagens que chocam. A mim chocam-me eventos desnecessários, inoportunos, evitáveis e ainda para mais faustosos, quando há cidadãos que passaram a viver mal, que ficaram completamente desprotegidos com a violência recente da natureza, a quem os apoios públicos não chegaram e a quem, certo e já experimentado, não vão chegar tão cedo. Ainda que os protocolos existam, há momentos em que deviam ser suspensos. Não creio que se viole a Constituição por não os realizar. Curioso que os autarcas tenham compensado financeiramente o trabalho – é verdade que oportuno e aturado – dos militares na limpeza e outros trabalhos de recuperação dos ambientes dos territórios atingidos pelas violentas tempestades – e estejam à espera das transferências governamentais para as suas autarquias! Quanto terá custado a homenagem ao erário público a homenagem referida? Certamente muitos, muitos, muitos milhares! O homenageado não se sentiu minimamente ofendido com o enorme gasto? Não achou pornográfica a homenagem que os diversos ramos das Forças Armadas lhe fizeram? Será que não sabia o que ia acontecer, sendo ele o comandante supremo daquelas mesmas Forças Armadas?


 

Enquanto acontecem cerimónias destas, em que o comandante supremo faz questão de continuar no “alto da montanha”, no “conforto da tenda”, nem que seja por umas horas de exaltação, “longe dos problemas”, protegido ele próprio pelas prerrogativas do cargo, não será ignorar ou esquecer-se da sua obrigação de cumprir o dever de proteger os que o elegeram e a quem prometeu tudo fazer? Cerimónias como a que aconteceu em Braga no passado fim de semana, não contrastam com o que se passa com a situação de grávidas que perderam a protecção de proximidade que tinham com o encerramento de urgências de obstetrícia e ginecologia? Governo que não valoriza estas especialidades – é o sinal que dá quando não investe o suficiente e, pior, quando tem vindo a desinvestir em vários hospitais – é Governo que não se preocupa com o futuro do país.

Luís Martins

Luís Martins

3 março 2026