... se não fôssemos pecadores e se, consequentemente, não tivessemos necessidade de perdão.
Acontece que o pecado é erro que carece de ser corrigido e é ofensa que precisa de ser perdoada.
Alegam muitos que não pecam. A Bíblia, a este respeito, é deveras contundente.
Se houver alguém que não tenha pecado, «que atire a primeira pedra» (Jo 8, 7). Pelo que, «se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós próprios e a verdade não está em nós» (1Jo 1, 8).
Por outro lado, «se alguém pecar, temos junto do Pai um Advogado, Jesus Cristo, o Justo, pois Ele é a vítima que expia os nossos pecados» (1Jo 2, 1-2).
E Cristo venceu o pecado morrendo «por nós» (Gál 3, 13), «por todos» (2Cor 5, 14), pelos pecados de todos (cf. Gál 1, 4).
O acesso à salvação — e, portanto, ao perdão dos pecados — ocorre no Batismo. Não esqueçamos que «batizar» significa «mergulhar», no caso, «mergulhar em Cristo», no Seu inteiro mistério pascal.
Deste modo, o que foi obtido por Cristo é obtido por quem n’Ele «mergulha» pelo Batismo: a salvação e, consequentemente, o perdão dos pecados.
Pode assim dizer-se que, no Batismo, há um «apagão hamartiológico», isto é, um «apagão» de toda a espécie de pecado.
Há um «apagão» quer do pecado que nos subjuga desde as origens, quer dos pecados que possamos ter cometido até ao Batismo.
Efetivamente, no mandato missionário, Jesus assegura que «quem acreditar e for batizado será salvo» (Mc 16, 15).
É em obediência a este mandato que Pedro, no dia de Pentecostes, exorta: «Convertei-vos e peça cada um o Batismo para a remissão dos seus pecados» (At 2, 38).
Acontece que, apesar do efeito plenamente regenerador do Batismo, o ser humano continua exposto ao pecado e ao assédio do mal.
Então a Igreja — ela mesma «sacramento da conversão» (Bernhard Haering) — oferece uma nova oportunidade, «uma segunda tábua de salvação depois do Batismo»: o Sacramento do Perdão.
Inicialmente e até por uma questão de simetria, como há um só Batismo, também se permitia apenas um único caminho penitencial em ordem ao Perdão.
Nessa altura, o perdão era somente concedido após o cumprimento da penitência, que podia durar meses ou anos. Posteriormente, foi permitido o recurso à penitência sempre que necessário e — mais ou menos, a partir do século IX —, o perdão passou a ser oferecido antes da execução da penitência.
Na pessoa do sacerdote, o penitente encontra-se com Deus. E a fórmula da absolvição até decalca a fórmula batismal: «Eu te batizo/Eu te absolvo “em nome” do Pai e do Filho e do Espírito Santo».
Neste sentido, a Reconciliação é uma espécie de reposição da vida nova recebida no Batismo.
Sendo assim e seguindo o apelo do Papa Francisco, «não renunciemos à Confissão».
Nela, retomamos a integridade e a candura do Batismo.