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Onde começa e/ou pode acabar o pretenso ‘racismo’?

 



 

 



 

As cenas mostradas – talvez não tenhamos visto tudo – por ocasião de um jogo de futebol sobre aquilo que designaram de racismo exige que não fiquemos na rama das coisas ou pela espuma dos episódios. O que aconteceu merecerá tanta atenção como aquela que lhe tem sido dada? Não se andará a reboque de minudências, menosprezando assuntos mais relevantes e com maior significado sociocultural? Atendendo ao impacto no mundo do futebol não andaremos a sobrevalorizar questões que deviam ser reduzidas ao valor que, afinal, contêm?



 

1. Consultando a Wikipédia vemos esta descrição daquilo que é considerado ‘racismo’:
«Racismo consiste no preconceito e na discriminação com base em perceções sociais baseadas em diferenças biológicas entre pessoas e povos. Muitas vezes toma a forma de ações sociais, práticas ou crenças, ou sistemas políticos que consideram que diferentes raças devem ser classificadas como inerentemente superiores ou inferiores com base em características, habilidades ou qualidades comuns herdadas. Também pode afirmar que os membros de diferentes raças devem ser tratados de forma distinta. Alguns consideram que qualquer suposição de que o comportamento de uma pessoa está ligado à sua categorização racial é inerentemente racista, não importando se a ação é intencionalmente prejudicial ou pejorativa, porque estereótipos necessariamente subordinam a identidade individual a identidade de grupo. Na sociologia e psicologia, algumas definições incluem apenas as formas conscientemente malignas de discriminação».

2. Não será que a questão do racismo – bem como da xenofobia em conexão ainda com o tema da homofobia – dá a impressão que só funciona de forma unívoca, isto é, dos negros que acusam os brancos, mas não destes quando ofendidos por aqueles e, sobretudo, quando as várias etnias de negros se guerreiam e se combatem quase de forma fratricida? Em muitos casos o racismo não encobrirá outras deficiências e debilidades cívicas, mesmo na área cultural e no âmbito socioeconómico? Se atendermos ao caso em apreço nos conflitos do futebolês quem beneficia mais com criar, incentivar e quase-cultivar atos de teor racista, os ditos ofendidos ou os pretensos ofensores?



 

3. Por vezes certas discussões (altercações, acusações, insinuações ou mesmo ofensas) sobre a tez da pele têm subjacentes preconceitos, interesses menos claros, senão pretensões quase-ideológicas. Nalguns casos os pretensamente ofendidos são mais racistas entre si do que aquilo que acusam nos outros… Quem não terá já visto e ouvido observações entre os da mesma tez com maior acrimónia do que aquela que recebem em intervenções infelizes de fora da sua (dita) coloração!



 

4. Quem estiver atento ao desenvolvimento das relações entre os povos e as culturas, entre as pessoas e os grupos, entre os indivíduos e as agremiações não terá grande dificuldade em perceber que, hoje, se nota mais agressividade e menos tolerância, mais desconfiança e menos abertura, mais conflitualidade e menos delicadeza, mais atenção ao que divide e menos cordialidade ao que une… É neste contexto – exacerbado ainda mais depois do tempo da pandemia – que teremos de entender e interpretar certas manifestações ditas de racismo, mas que podem esconder algo mais complexo e conflituoso se não for atalhado com brevidade.



 

5. Pelo muito que fazem e que têm feito pela evolução cultural da humanidade, as expressões religiosas – onde se conta o cristianismo, com tantas luzes e sombras – são fórmulas de ir criando a fraternidade universal, propondo valores, criando ambiente e participando no combate a todas as formas de racismo, tenha ele tonalidade que tiver. Temos tanto a evoluir… em humanismo verdadeiro!

António Sílvio Couto

António Sílvio Couto

2 março 2026