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O Senhor da Consolação

 



 

 



 

Como filho da terra que me viu nascer, Merelim (S. Pedro), começo por felicitar a Junta de Freguesia liderada pela Presidente, dr.ª Adélia Silva, pelos recentes melhoramentos locais conseguidos. Cito a requalificação levada a efeito não só no espaço frontispício ao Cemitério, como no adro da Igreja Paroquial e sua área envolvente. Só é pena que a Rua da Saudade não tenha sido bafejada com alguma generosidade por parte da entidade detentora dos terrenos contíguos à mesma. Pois, se tal tivesse ocorrido, seria uma forma de amplificar a passagem de acesso ao parque de estacionamento-automóvel a quem lá se desloca de carro.

Já a minha menção honrosa, vai para o alargamento da rua Prof. António José Ribeiro de serventia ao referido templo e não só. Uma aspiração do meu saudoso pai quando teve, em tempos idos, responsabilidades Autárquicas sem nunca ter conseguido concretizá-la. Uma vez que tinha projetado transformar esse outrora caminho público numa espaçosa avenida com passeio para peões, separador central ajardinado com algumas árvores pelo meio. Tal não foi possível na altura, dada a negação da cedência de duas nesgas de terreno por parte dos “esmifras” donos dos campos agrícolas que o ladeavam.

Também constatei ter sido demolida a vetusta Capela do Senhor da Consolação, de que guardo gratas memórias dos meus tempos de menino e moço. Pois, segundo reza o cartaz lá colocado, aquele espaço irá dar lugar a uma futura Casa Mortuária. Uma decisão, não sei se precipitada, mas algo rebatível. Não só por ter sido sacrificada aquela relíquia religiosa, como quanto à situação geográfica escolhida para esse equipamento fúnebre. Contudo, plausível, dado saber-se o quão complexo é conseguir alternativa capaz para o efeito. 

Lembro-me de em dia de S. Sebastião, aí pelos anos 50, eu e outro elemento da Catequese termos sido destacados para alguns peditórios junto à referida Capelinha onde havia uma peanha com a sua imagem. Logo de manhãzinha, abríamos a porta, envergávamos as opas e, cada um de nós, de caixa de esmolas azul em punho, dirigia-se ao cavaleiro em trânsito para a festa ao Mártir, que se realiza em Prado, no intuito de negociar o seu animal na feira dos burros e pedir-lhe: – “ó tio, vá lá, dê uma esmolinha p’ró S. Sebastião”. Insistindo com o romeiro até ao largo de S. Braz a quem, após depositar o óbolo na caixa, restava agradecer com o habitual: – “S. Sebastiãozinho o ajude”. Ou, em caso de negação, lá saia uma de: – “chuço” ou “avarento”. Ao princípio da noite, íamos à morada do zelador, sr. Francisco Pinto, entregar as caixinhas (com segredo), abri-las, contar o dinheiro e recebermos cada nosso cartuchinho de figos secos. 

Também me recordo de ter presenciado uma celeuma provocada pela decisão do Vaticano em retirar as imagens de roca dos altares das Igrejas, que o respetivo pároco teve de cumprir. Anunciando na Eucaristia dominical a saída do Senhor dos Passos do seu altar. Algo impensável para os seus devotos. Porém, com diálogo e entendimento entre o reitor e as partes envolvidas, lá foi acertado um acordo que contemplava angariar fundos para ser adquirida uma nova imagem (maciça) em substituição da ancestral. A que se lhe seguiu uma das duas últimas Procissões dos Passos, realizadas em Merelim, a fim de Jesus se ir juntar a Sua Mãe das Dores (de roca) na Capelinha da Consolação. 

No historial disponível, é omissa a data da construção da Ermida, mas refere ser de estilo “joanino”. Apenas consta ter existido do outro lado da via um nicho contendo um painel pintado de Cristo na cruz. O mesmo que, segundo as vozes d’antanho, teria de sumir dali por causa das obras de alargamento e empedramento da atual estrada nacional. Tendo-se, então, reunido algumas almas piedosas no sentido de angariarem donativos para a construção da Capelinha que, agora, se eclipsou. De resto, cumpre aos Autarcas atuais a rigorosa escolha para ditarem o que de velho deve dar, ou não, lugar à novidade. 

DR

Narciso Mendes

Narciso Mendes

2 março 2026