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“350 anos de devoção”

 


 

Fundada em 20 de julho de 16761, a Irmandade do Senhor dos Passos da Vila de Prado está a celebrar 350 anos. Para assinalar o acontecimento, inaugurou, no passado dia 21 de fevereiro, em cerimónia solene, uma exposição intitulada “Irmandade do Senhor dos Passos: 350 anos de devoção”. A referida exposição pode ser visitada no Centro Interpretativo do Artesanato em Cerâmica, na Rua Direita da Vila de Prado, de terça a sábado, entre as 10h e as 18h, até ao dia 29 do presente mês (Domingo de Ramos). Composta por peças históricas, documentos e obras de arte sacra, preservados ao longo das gerações, apresenta apenas uma parte do vasto e rico espólio da referida Irmandade. 

Num périplo pela exposição, o visitante pode observar alguns livros antigos: os estatutos da Irmandade, desde o início até aos que agora se encontram em vigor; livros de contabilidade, de registos de irmãos, de atas e também um missal de 1756, recentemente restaurado. Pode ainda ver diversas bandeiras, cruzes, imagens (uma do Senhor dos Passos e outra da Senhora das Dores), assim como objetos relacionados com a Paixão (a espada com que Pedro cortou a orelha do servo do sumo sacerdote; a corneta com que se assinala o início da Procissão; uma escada, uma lança, um martelo e as cordas da flagelação, entre outros).

A concluir o seu périplo, o visitante tem a oportunidade de inteirar-se, através de um vídeo de pouco mais de uma hora, de toda a dinâmica da Procissão dos Passos, desde a experimentação dos guiões2 até à Via Sacra3 e à Procissão dos Passos, na tarde do Domingo de Ramos. No espólio significativo de fotografias, umas mais antigas e outras mais recentes, de diversas Procissões dos Passos, pode ainda reconhecer o rosto de familiares ou pessoas conhecidas que já faleceram.

A Irmandade é uma instituição católica com uma tradição religiosa e cultural muito antiga e enraizada na história da Vila de Prado, onde tem desempenhado um papel importante na vida religiosa, ao garantir assistência espiritual aos seus membros (os “irmãos”) e ao promover tradições ligadas à Quaresma e à Semana Santa. 

Para além de marcar presença no funeral dos “irmãos” e de sufragar cada um deles em seis eucaristias, a sua principal missão é promover a devoção ao Senhor dos Passos, uma invocação de Jesus Cristo que lembra o caminho da Paixão, desde a condenação, no Pretório de Pilatos, até ao Calvário4.

No ano em que há Passos (anos pares), a Irmandade e a Comissão que a auxilia começam por promover, em cada um dos Domingos da Quaresma, um sermão sobre diferentes temas e momentos da Paixão: Jesus no horto das Oliveiras (I Domingo), Jesus preso à coluna (II Domingo), Jesus coroado de espinhos (III Domingo), Jesus sentado na pedra fria (IV Domingo) e Jesus despojado das suas vestes (V Domingo). Na tribuna da Igreja Matriz, o cenário é adequado a cada um dos temas e, do púlpito, o pregador ajuda a assembleia a refletir sobre o sentido de cada cenário e a tirar daí algumas lições para a vida.

A Procissão do Senhor dos Passos é uma das manifestações religiosas mais acarinhadas pela comunidade local. São inúmeros os figurantes que, com acentuado rigor bíblico, representam os diferentes momentos da Paixão de Cristo. Elemento importante da identidade religiosa e cultural dos pradenses, esta procissão atrai inúmeros fiéis, de toda a região, apesar de, nesse dia, também se realizar a Procissão dos Passos, em Braga.

Tendo em conta a sua dimensão religiosa, a exposição serve para fortalecer a fé (pela exposição das imagens, os fiéis são convidados à oração, à contemplação e ao encontro com Deus), para ensinar e evangelizar (ao contar a história da Paixão de Jesus, ajuda na catequese e na transmissão da tradição), para criar momentos de espiritualidade (proporcionando silêncio, meditação e recolhimento, favorece experiências de paz interior e de espiritualidade) e para valorizar a arte e a cultura religiosas (mostra obras sacras históricas, preservando o património religioso e cultural). 

Sugiro aos leitores que não deixem de fazer a visita a esta exposição e que tal contribua para uma melhor vivência do Tempo Quaresmal e para participar, de forma condigna, na celebração dos 350 anos de tão relevante instituição.

1 É esta a data que consta dos primeiros Estatutos desta Irmandade presentes nesta exposição e ainda em bom estado de conservação.

2 O guião é um estandarte que abre uma Procissão. No caso de Prado, são dois que apenas têm em comum o tamanho das varas: 6 metros. Há algumas diferenças entre eles: o maior mede cerca de 4 metros e apresenta o rosto de Cristo estampado, bem como os diversos objetos da Paixão; o segundo mede cerca de três metros e apresenta as letras SPQR (acróstico de Senatus Populusque Romanus, “o Senado e o Povo Romano”), numa alusão a quem, instigado pelo Sinédrio, decretou a condenação de Jesus. 

3 Nesta Via Sacra, que ocorre na noite da sexta-feira antes do Domingo de Ramos, a Senhora das Dores é levada para a Capela do Bom Sucesso, de onde sairá quando for chamada pelo pregador a ir ao encontro de seu Filho, num dos momentos mais esperados e emotivos da Procissão, o Sermão do Encontro. 

4 “Paixão” vem da palavra latina passio, que significa “sofrimento”, “padecimento”. Pertence ao campo semântico do verbo patior, “sofrer”, “suportar”. A palavra “Passos” deriva do étimo latino passus, que significa “passada”, “movimento do pé”. No contexto religioso, houve uma aproximação semântica entre passio e passus, a ponto de os Passos da Paixão passarem a significar as etapas do sofrimento de Cristo. Trata-se de uma convergência histórica de significado, não de uma derivação direta. Na vizinha Espanha, o termo “Los Pasos” remete para os andores ou carros processionais usados nas procissões da Semana Santa, com imagens de Jesus Cristo, representações da Virgem Maria e cenas completas da Paixão (a Última Ceia, o Encontro com Maria, a Crucificação, etc.). Essas esculturas costumam ser muito antigas (séc.s XVI e XVII) e de grande valor artístico.


 

Pe. João Alberto Sousa Correia

Pe. João Alberto Sousa Correia

2 março 2026