Nestes tempos conhecidos de pós-modernidade, eivados de hedonismo e falta de compromissos duráveis, que levam a divórcios e famílias tristes – algumas cristãs –, que, mesmo assim, querem batizar os filhos na Igreja, mas vivem fora dos parâmetros e da moral cristã, seria bom trazer à liça algumas reflexões.
É verdade, “cada um escolhe a sua gaiola” (fr). Antes, alguns querem entrar, mas depois de entrar, querem sair. Porquê? Menos matrimónios, mais casamentos (sem a bênção nupcial), porém outros há de filhos separados, dramas de famílias monoparentais, ou em curto-circuito e uniões de facto, em transes silenciosos, ou dramáticos, para não falar dos filhos de diversos pais ou mães – as influências muçulmanas em comunidades cristãs… Tudo parece permitido no espaço português com as bençãos da Constituição Portuguesa, moderna, permissiva e de benesses… Sim, como em alguns países ricos, só que… aqui é Portugal, onde falta habitação e salários baixos. Como será o futuro?
Se casais duradouros sólidos, mesmo a trabalhar os dois, têm dificuldades para alimentar e cuidar dos filhos, que será de famílias monoparentais com filhos? E quem lhes vai pagar no futuro, com pensões tão baixas? Os que trabalham e pagam impostos para eles?Assistiremos a uma nova pobreza, com novos candidatos aos subsídios da Segurança Social, num País pobre, mal organizado, com leis modernas, injustas… e liberais ou libertinas.
Ao olhar para tantas traições e infidelidades, lembrei-me da tragédia grega de Eurípedes, onde Medeia(431), a mulher traída se vinga do marido, da sua rival e dos próprios filhos, exprimindo o sofrimento da infidelidade que a levou a vingança conjugal.
Abandonada por Jasão, que pretendia desposar a filha do rei de Corinto, Medeia premedita terrível vingança contra o marido e contra a sua rival. Manda a esta uma coroa de oiro e um vestido impregnado de veneno.
Em consequência, morre a filha do rei de Corinto e morre também o seu pai, atingido pelo enérgico fatal veneno. Vendo que a sua vingança dera resultado, Medeia resolve matar os seus dois filhos. Leva-os para o interior do palácio e lá os jugula. Ouvem-se os gritos das crianças e, depois, Medeia aparece triunfante nos ares sobre um carro puxado por dragões alados: ri-se do sofrimento de Jasão, e foge para Atenas, onde o rei Egeu lhe oferece asilo.
Conforme diz Antonio Freire, SJ. este tema já tinha sido tratado no teatro grego. Mas nunca com a vivacidade psicológica de furor, de lutas interiores, de crueldade selvagem, com que o dramatiza Eurípedes, um pouco misógino. Revela contudo a infâmia de uma perfídia e ingratidão, como a dor e o desespero de uma esposa atraiçoada, bárbara “com astúcia e poder de dissimulação, num ímpeto selvagem da sua paixão e crueldade refinada de planos e energia feroz. Será talvez a paixão e não o Destino, que arrasta Medeia para o crime. Ela, falando por si e em nome das mulheres em geral, confessa que “as mulheres, quando se sentem ofendidas por questões de amor conjugal, são os seres mais criminosos que há”. E, já decidida ao assassínio dos próprios filhos, declara a sua impotência para se dominar: “Compreendo bem a enormidade do crime que vou praticar; mas a paixão é superior às minhas resoluções; é ela a causa dos piores males dos homens” ( Cf. António Freire.O Teatro Grego, Ed. APPACDM , Braga 1997- p.289-290)
Como se justifica hoje tanta violência doméstica? Porquê tantos divórcios? De quem, a culpa? Se há necessidade de filhos, porquê tanto inverno demográfico? Nas escolas ensina-se a terem filhos nos ciclos biológicos normais, ou a evitá-los?
Talvez no futuro tenhamos muito mais a lamentar, quando a influência das igrejas e moral é cada vez menor. Até quando?!…