1. A semana passada lembrei a disciplina da Igreja relativamente à penitência quaresmal do jejum e da abstinência.
Normas estabelecidas pela Conferência Episcopal Portuguesa em julho de 1984 e ainda em vigor estabelecem que:
«O preceito da abstinência obriga os fiéis a partir dos 14 anos completos.
O preceito do jejum obriga os fiéis que tenham feito 18 anos até terem completado os 59.
As presentes determinações sobre o jejum e a abstinência apenas se aplicam em condições normais de saúde, estando os doentes, por conseguinte, dispensados da sua observância».
2. Na mensagem para esta Quaresma o Papa Leão XIV escreve a dada altura: «gostaria de vos convidar a uma forma de abstinência muito concreta e frequentemente pouco apreciada, ou seja, a abstinência de palavras que atingem e ferem o nosso próximo.
Comecemos por desarmar a linguagem, renunciando às palavras mordazes, ao juízo temerário, ao falar mal de quem está ausente e não se pode defender, às calúnias.
Em vez disso, esforcemo-nos por aprender a medir as palavras e a cultivar a gentileza: na família, entre amigos, nos locais de trabalho, nas redes sociais, nos debates políticos, nos meios de comunicação social, nas comunidades cristãs.
Assim, muitas palavras de ódio darão lugar a palavras de esperança e paz».
3. Entendo por virtude da Penitência o esforço que cada um faz no sentido de procurar ser cada vez melhor: melhor ser humano e melhor cristão. Identifico-a com o sacrifício e a mortificação. Neste sentido – e é o que hoje pretendo sublinhar – há penitências que não têm nada a ver com a idade do penitente nem com a época do ano. Não têm limite de idade.
Há várias formas de penitência, independentemente das relacionadas com comida ou bebida. São João Berchmans, canonizado por Leão XIII em 1888, afirmou um dia que a sua maior penitência era a vida em comum.
O convívio diário com outras pessoas, com diferentes personalidades, com as suas virtudes mas também com os seus defeitos e manias, nem sempre é fácil. Pode exigir grande espírito de sacrifício. Porque há pessoas que não toleram nada abundam as separações.
4. Recordei orientações da Igreja segundo as quais há atos de penitência de cuja observância estão dispensados os doentes.
Lembro que, perante a doença, são possíveis três atitudes: revolta, aceitação, sublimação.
A primeira é a fuga à penitência que a aceitação do sofrimento representa. Nada resolve. Não o elimina e, em certo modo, agrava-o. Faz sofrer os outros. Pode levar ao desespero.
A aceitação também não põe termo ao sofrimento mas ajuda a vivê-lo. Com paciência e resignação. E não é pequena penitência aceitar as limitações que a doença impõe.
A sublimação ajuda a descobrir o valor do sofrimento. Une-o ao sofrimento redentor de Jesus. Contribui para que a falta de saúde não seja considerada tempo perdido mas enriqueça sobrenaturalmente a pessoa que sofre e seja motivo de edificação para outros. Penso, concretamente, na Beata Alexandrina de Balasar que soube sofrer, soube ensinar a sofrer, viveu a penitência do sofrimento como caminho de santidade.
5. Em resumo: não há limite de idade para a prática do bem mesmo que isso represente uma penitência. Não há limite de idade para ser delicado e atencioso para com todos. Não há limite de idade para o sacrifício de aceitar os outros como eles são, lembrado de que Deus cria originais e não fotocópias. Para o sacrifício que representa o esforço da nossa conversão pessoal. Para a resistência à tentação de impormos os nossos caprichos e as nossas manias, desculpando-nos com o «eu sou assim» ou «burro velho não toma andadura». Não há limite de idade para colaborar na construção de uma sociedade cada vez mais verdadeira, mais solidária, mais justa, mais fraterna. Não há limite de idade para o sacrifício que exige a renúncia ao egoísmo, ao exibicionismo, aos gastos supérfluos. Não há limite de idade para deixarmos de fazer o que, em consciência, pensamos ser a vontade de Deus a nosso respeito.