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Na Saúde e na Doença

Falar de saúde é, inevitavelmente, falar de proximidade. No concelho de Braga, à semelhança de tantos outros municípios, os cuidados de saúde primários deveriam ser a porta de entrada no Serviço Nacional de Saúde, garantindo acompanhamento regular, prevenção da doença e resposta atempada às necessidades da população. No entanto, para muitos bracarenses, essa porta continua a ser difícil de abrir; não por falta de vontade, mas por obstáculos, também logísticos, que persistem no terreno.


 

Um dos problemas mais evidentes prende-se com a acessibilidade física de algumas das unidades de saúde, especialmente para pessoas com mobilidade condicionada. Existem estabelecimentos de saúde onde o acesso é feito por escadas, rampas inadequadas ou entradas pouco funcionais, tornando uma simples consulta um verdadeiro desafio para pessoas idosas, pessoas com deficiência, utentes temporariamente limitados na sua mobilidade, bem como pais e mães com crianças de colo ou em carrinho. Num concelho que se quer inclusivo, estas barreiras não podem ser encaradas como pormenores.


 

A estas dificuldades somam-se diversos problemas de localização e de transporte. Na verdade, nem todos os estabelecimentos de saúde estão bem servidos por transportes públicos, o que obriga muitos utentes – sobretudo em freguesias mais periféricas – a depender de familiares ou de soluções dispendiosas para chegar a uma consulta. O direito à saúde, enquanto direito fundamental, não pode, nem deve estar condicionado à capacidade física e/ou económica de cada cidadão ou cidadã.


 

Do lado de dentro de muitos dos nossos estabelecimentos de saúde, as limitações também são sentidas, afetando a experiência dos utentes, dificultando o trabalho diário dos profissionais de saúde; aqui, será clara a escassez de espaços adequados, onde proliferam salas de espera exíguas, não raras vezes com falta de conforto e com equipamentos envelhecidos. Também o trabalho diariamente desenvolvido pelos profissionais de saúde é frequentemente realizado em condições que não correspondem à exigência e à responsabilidade das suas funções (a título de exemplo, a ausência de climatização adequada), o que contribui para o desgaste profissional e para a desmotivação crescente.


 

Estas fragilidades logísticas acabam por ter consequências mais amplas. Quando os cuidados de saúde primários não conseguem dar uma resposta acessível, adequada e eficaz, muitos utentes recorrem ao hospital, agravando a pressão sobre os serviços de urgência e criando um ciclo de sobrecarga que prejudica todo o sistema.


 

É importante sublinhar que o problema não reside nos profissionais, cujo empenho e dedicação são amplamente reconhecidos (devendo ser de salientar que fazem diariamente o possível – e muitas vezes o impossível!), mas sim na falta de investimento continuado, planeamento e adaptação das infraestruturas às reais necessidades da população. Melhorar a acessibilidade, modernizar instalações e criar condições dignas de trabalho não são luxos, são antes requisitos básicos de um serviço público de qualidade, sendo imprescindível a definição de políticas públicas eficazes e planeamento a longo prazo.


 

Um concelho com a importância económica, académica e demográfica de Braga deveria ser capaz de exigir – e implementar – soluções mais robustas, desde o reforço dos cuidados de proximidade até à valorização efetiva dos profissionais de saúde. No entanto, os serviços de saúde de Braga não parecem acompanhar esse dinamismo. Quando olhamos para o estado da saúde no nosso concelho, a sensação é de que esse compromisso com a população bracarense anda a ser diariamente posto à prova, instalando-se a dúvida: será esta mais uma realidade a ser varrida para debaixo do tapete?


 

A saúde não é apenas um indicador estatístico; é um pilar da dignidade humana e da coesão social. Ignorar os sinais de desgaste do sistema é comprometer a confiança pública.

É admitir que, nos momentos de maior vulnerabilidade de uma pessoa ou de uma família, lavamos as mãos e entregamos, numa bandeja, um programa eleitoral repleto de intenções — cuja não execução se justifica com acusações à oposição ou com o constante empurrar de responsabilidades para o Estado central. Esquecemo-nos de que o compromisso, tal como o casamento, é uma prática diária, cuja execução se revela na saúde, mas sobretudo na doença.

Marta Mendes

Marta Mendes

19 fevereiro 2026