A decisão desta semana do Parlamento de restringir, aos menores de 16 anos, o acesso às redes sociais, levanta muitas dúvidas no meio de alguma satisfação que uma medida desta natureza possa pretensamente querer alcançar. Por um lado, temos a total proibição de acesso a menores de 13 anos e, por outro, a assunção da responsabilidade parental na autorização para que a partir daquela idade, os menores possam aceder até terem total liberdade de o fazer sem qualquer controlo como o faziam até aqui. Já não tenho filhos nessa faixa etária, mas é fácil imaginar a onda de conflitos familiares a que vamos assistir; desde as “chantagens” entre pais e filhos, conflitos entre irmãos e negociações às escondidas dos mais novos com os mais velhos, ou não fora o “fruto proibido o mais apetecido”. Como tem acontecido com outras matérias, o Estado toma decisões pela metade, sem ponderar a montante e a jusante se o alcance deste tipo de ação terá o efeito desejável. Sabemos, isso sim, que o uso dos telemóveis nas escolas, também ela uma medida restritiva, mas mais saudável, teve como efeito colocar as crianças ao nível do estatuto que lhes é devido: serem crianças a tempo inteiro no tempo em que o podem ser, na sua ingenuidade, nas brincadeiras, na interatividade com os outros, na aprendizagem das relações interpessoais e o quanto isso é importante para o crescimento saudável. Aliás, seria importante que medidas deste alcance fossem acompanhadas por outras de natureza similar em que as crianças têm sido transformadas em “adultos” à força, com festas de finalistas imitando os mais velhos (universitários) ou pais que vestem as crianças e permitem aos seus jovens utilizarem a moda como instrumento de poder e ostentação, numa comunidade escolar onde nos deparamos, por vezes, com autênticas “passerelles”. Nada contra a liberdade de expressão de usos e costumes, mas o exagero e o incremento de atitudes que alimentam a diferença e dividem o espaço escolar entre ricos, remediados e pobres, alimenta o ódio, a indiferença e tende a promover a irracionalidade social nas relações interpares. A medida agora aprovada tem a bondade de querer proteger crianças e jovens dos malefícios das redes sociais que nasceram para aproximar pessoas numa era da globalização e que rapidamente se transformou num monstro radicalizando e estupidificando os jovens, alimentando a irracionalidade, permitindo a manipulação, o incremento de uma verdade alternativa aos factos como se a vida pudesse ser substituída por um avatar e vivermos nela com os apetites mais cruéis, desumanos e infiéis à bondade e à solidariedade, parâmetros que suportam valores e princípios num Estado de Direito que, infelizmente, estas redes sociais, dominadas por múltiplos interesses geoestratégicos, poem em causa. Ao proibir o acesso às redes, era importante fazê-la acompanhar por outras medidas como preparar as crianças para o seu uso, antes de chegarem à idade em que os pais, em teoria, lhes podem dar acesso com o seu consentimento. Uma medida desta natureza, com alcance pedagógico, a partir do 4.º ano de escolaridade, prepara, sem alarmismo, os jovens para um mundo que vão ter de enfrentar, do mesmo modo que já é feito noutras áreas através da disciplina de educação para a cidadania. Desconheço, para já, os resultados alcançados na Austrália onde esta proibição foi pioneira, com tendência para se generalizar. Mas uma coisa sei: é tempo de deixar os nossos filhos serem crianças a tempo inteiro e preparar os jovens adultos para serem pais responsáveis para que o futuro seja viável e mais humano.