O ritmo litúrgico conduz-nos, mais uma vez, ao tempo da Quaresma, um período especial que a Igreja propõe como ocasião privilegiada para renovar atitudes e comportamentos fundamentais da vida cristã. A oração é chamada a ocupar um lugar mais central, o jejum a marcar o ritmo de alguns dias e a esmola a assumir-se como resposta concreta a problemas humanos e sociais.
Ao mesmo tempo, a Quaresma é um tempo “favorável” para olhar a vida de modo diferente. Durante a pandemia, circulou um artigo que afirmava que “a habituação é o pior vírus da Igreja”, reconhecendo que, em vez de mudança e ousadia, muitas vezes se oferece uma vida estagnada, uma pastoral repetitiva e uma espiritualidade acomodada à mediocridade. Esta reflexão mantém-se atual e interpelante.
Foi também esta preocupação que recordei ao ouvir o Papa Francisco na homilia proferida no Mosteiro dos Jerónimos, a 2 de agosto de 2023, durante as Vésperas com bispos, sacerdotes, diáconos, consagrados, consagradas, seminaristas e agentes de pastoral, no contexto das Jornadas Mundiais da Juventude. Como tantas outras vezes, a sua mensagem dirigia-se a “todos, todos, todos”.
Nessa ocasião, o Papa sublinhou a urgência de a Igreja se interrogar sobre a sua autossatisfação e sobre a resignação que, lentamente, se foi instalando na sua vida e na sua missão. Perante este risco, afirmava ser necessário reavivar a “inquietação pelo Evangelho”, convidando a um compromisso mais claro e decidido. Para isso, propunha o cultivo de uma “espiritualidade do novo início”. Estas duas expressões, “inquietação pelo Evangelho” e “espiritualidade do novo início”, podem acompanhar-nos, de forma particularmente fecunda, ao longo deste tempo quaresmal.
Para explicitar o seu pensamento, o Papa recorreu à passagem evangélica dos Apóstolos nas margens do Mar da Galileia: “Viu dois barcos que se encontravam junto ao lago. Os pescadores tinham descido deles e lavavam as redes” (Lc 5,2). O contraste é evidente: enquanto os pescadores descem do barco para lavar e guardar as redes, preparando-se para regressar a casa, Jesus sobe para o barco e convida-os a lançar novamente as redes ao mar. Os discípulos querem terminar, o Mestre desafia a recomeçar.
Jesus olha com ternura para Simão e para os seus companheiros, cansados e angustiados, presos a um gesto repetitivo e resignado, depois de uma noite de trabalho sem resultados. As redes vazias simbolizam o desânimo, a frustração e o cansaço que facilmente se instalam quando o esforço parece inútil. No dia seguinte, tudo recomeça, mas frequentemente marcado pelo pessimismo e pela falta de esperança.
Olhando para a realidade atual da Igreja, o Papa é particularmente claro e exigente. Afirma: “Aposentamo-nos do zelo apostólico”, e alerta para o risco de nos tornarmos “funcionários do sagrado”. É triste, sublinha, quando alguém que consagrou a sua vida a Deus se limita a administrar rotinas, perdendo o ardor e a paixão da missão.
Perante esta situação, o Papa convida a subir novamente para o barco, com “o entusiasmo da primeira vez”, um entusiasmo que precisa de ser revivido, reconquistado e renovado. Hoje, torna-se imperioso não ter medo e redobrar a alegria para, de novo, “fazer-se ao largo” e lançar as redes, confiando na palavra do Senhor.
Como resposta ao desalento que afeta muitas comunidades e, de modo particular, os agentes de pastoral, o Papa insistiu na necessidade de uma verdadeira “espiritualidade do recomeço”. Não se trata apenas de multiplicar iniciativas, mas de regressar ao essencial. Sem um reencontro vivo com o Evangelho, os resultados continuarão a ser frágeis e pouco duradouros.
É verdade que não faltam atividades pastorais. As comunidades organizam-se, mobilizam-se e demonstram grande dedicação, como se verifica, por exemplo, nas procissões e noutras expressões públicas de fé. Contudo, muitas vezes, ficamos pelas exterioridades, facilmente amplificadas pela comunicação social, correndo o risco de nos contentarmos com o que é visível e imediato.
A Quaresma convida-nos a regressar ao interior e a perguntar, com honestidade: passa por aqui o Evangelho? Esta pergunta deve interpelar primeiro cada pessoa (sacerdotes e leigos) e, depois, a comunidade no seu conjunto. Só assim o testemunho cristão poderá tornar-se verdadeiramente diferenciador numa sociedade que, embora pareça alheada, procura desesperadamente sentido e esperança em alternativas que, muitas vezes, apenas distraem e alienam.
Concluo com outra interpelação do Papa Francisco: “Queres descer do barco e afundar-te na desilusão ou fazer-me subir, permitindo que seja mais uma vez a novidade da minha Palavra a tomar nas mãos o leme? Queres apenas conservar o passado ou lançar de novo, com entusiasmo, as redes para a pesca?”. Eis o desafio que o Senhor nos coloca: despertar a ânsia pelo Evangelho.
Não será este apelo uma oportunidade para viver uma Quaresma verdadeiramente diferente, nas nossas vidas pessoais e nas nossas comunidades?