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Os problemas da longevidade

Segundo as estatísticas, somos um dos países mais envelhecidos da Europa; e este facto quando, a partida, devia ser um fator de orgulho e magnificência, na realidade não passa de uma enorme dor de cabeça para as famílias e uma amostra pública, em muitos casos, de ineficácia, abandono e impotência de políticos, governantes e instituições de solidariedade, saúde e segurança social.

Se recuarmos no tempo, a esperança de vida não ia muito para além dos 70 anos que era a idade oficial obrigatoriamente estabelecida para a aposentação ou reforma; e se havia muitos portugueses que cumpriam este desiderato legislativo, dificilmente atingiam os oitenta anos de vida, e outros tantos, nem sequer aqui chegando, almejavam o gozo de tal situação pós laboral.

Já venho dos tempos em que ser velho era uma doce aventura, mormente se decorria sem fenómenos de doença, interrupções laborais ou internamentos hospitalares e a meta dos cem anos de idade só cortada era por uma muito escassa e excecional camada de população.

E na aldeia onde nasci e vivi até à juventude, as pessoas idosas, muitas delas porque nem reforma tinham, trabalhavam quase sempre até ao fim das suas vidas; e mesmo os que tinham reforma garantida devido à sua condição profissional de funcionários públicos, por exemplo, ou de trabalhadores por conta de outrem, aproveitavam a reforma, dada a sua dimensão monetária tão baixa, para se dedicarem a tarefas caseiras ou a serviços independentes.

Pois bem, a longevidade alcança, hoje, muita da nossa população (é frequente vermos grupos de idosos, seja a passear, seja a sair e entrar em residências e lares destinados a acolhê-los), o que, em termos de cuidados, quer de saúde, quer de bem- estar social, trouxe problemas complexos à sociedade em geral, e às famílias em particular; e, se pensarmos em termos de apoios sanitários e médicos, a situação é obviamente inquietante para os respetivos profissionais e para as suas famílias.

Esta realidade concreta, por exemplo, fez disparar a construção e funcionamento de lares e estruturas residenciais para idosos o que consigo arrasta enormes problemas de funcionamento, gastos e qualidade com os seus internados ou apoiadosJ e já para não falarmos na abertura e funcionamento destes serviços muitas vezes clandestinos, mal geridos e pior organizados.

Depois, não tem sido fácil pôr de lado a ideia de que estas instituições são um mal necessário, tal como os berçários e os infantários; e, sobretudo, porque para a idiossincrasia e cultura nacional esta forma de vida, mesmo na velhice, só é aceite e tolerada se o idoso não possui a necessária mobilidade e as mínimas condições mentais; e isto porque retirar o idoso do seu seio (ambiente) familiar, do seu cantinho, como se diz, não passa de uma violência, fruto do seu desenraizamento.

E, então, quando constatamos que a longevidade reinante é uma realidade onde as demências levam vantagem e estão, mesmo na vanguarda das preocupações sanitárias e médicas, a situação piora, pois os cuidados de assistência complicam-se e, inclusive, excedem os próprios conhecimentos e meios de apoio rápido e eficiente dos respetivos serviços; e porque há lares e estruturas residenciais para idosos transformados em armazéns de gente utente incapaz, porque inválida e demente, caso é para declararmos que a longevidade sem a qualidade mínima desejada não passa de uma negação da natureza mesmo que humana.

E, então, só nos pode consolar e confortar a evidência de que, como as árvores que morrem de pé, a toda a natureza humana não lhe devia ser negado este fim de vida porque esta verdade teria de encaixar (perdoem-me a sua dureza e crueza) na certeza de que, sendo Deus o autor e senhor das nossas vidas e, por isso, acreditamos que vivemos até onde Ele quer e como quer, somos tentados a interrogarmo-nos se a longevidade com qualidade, tal como às árvores, não nos devia ser permitida e consentida.

Então, até de hoje a oito.

Dinis Salgado

Dinis Salgado

11 fevereiro 2026