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Poderosos e pudorosos

Poderoso é quem tem poder; puduroso é quem tem pudor. 

Não era mau que os poderosos tivessem mais pudor. E seria bom que os pudurosos tivessem um pouco mais de poder. 


 

Aos poderosos nem faltará competência e determinação. Mas, muitas vezes, falta-lhes pudor. Minimizam fraquezas e trombeteiam méritos. 

Ou seja, os poderosos raramente são pudurosos. Sem dar conta, estão insuflados de «hybris», dificilmente veem para lá de si mesmos. 


 

Talvez esteja na hora de trazer os pudurosos para o exercício do poder. 

Por onde começar? O poder dos pudurosos começa com a despretensão e a humildade progredindo com o realismo da verdade.


 

Estaremos condenados – perguntava Hermann Hesse – «a permitir que sejam a ambição e o dinheiro a governar tudo?»

É urgente que os poderosos tenham um pouco de pudor e recuem. E é absolutamente necessário que aos pudurosos seja endossado um pouco de poder. E que apareçam, apesar do seu pudor.


 

O poder dos poderosos sem pudor tem redundado no abandono dos desvalidos, dos pobres. Porque o poder dos poderosos – assim notou Byung-Chul Han – «manifesta-se como um aumento do eu».

Acresce que «o detentor do poder busca a expansão máxima do seu eu subjugando os outros. O seu espaço não é limitado por ninguém».


 

O poder dos poderosos sem pudor cria-lhes «a ilusão de ampliarem o seu espaço em torno dos outros. Através do poder, perpetuam-se nos outros», suprimindo-os.

Neste sentido, «a renúncia ao poder equivaleria a uma renúncia do eu». Seria um vazio a que não sobreviveriam.


 

É preciso uma conversão a partir da alma, a partir do fundo do ser. É preciso mais pudor, sobretudo para quem está no poder.

Para quê tanto deslumbramento se, por muito que perdure, o poder acaba por ser sempre efémero? Para quê tanto investimento na imagem se a realidade se desnuda mais cedo ou mais tarde?


 

Já que o recato está em baixa, é fundamental destacar o valor medicinal do pudor para a sanidade pessoal e para as relações humanas em geral.

O excesso de voluntarismo, a beirar uma espécie de «messianismo narcisista», tem precipitado a humanidade para um abismo do qual dificilmente haverá retorno.


 

A rota do poder é, quase sempre, sinuosa e com desfechos imprevisíveis e escassamente salutares para os mais desprotegidos.

É penoso que se apregoe — sem qualquer indício de rubor facial — que se é o mais capaz, o mais dotado e habilitado, vazando sobre os outros cargas insuportáveis de humilhação. Algum poderoso que considere os outros superiores a si mesmo (cf. Fil 2, 3)?


 

Apresentem-se, digam o que propõem, não julguem e deixem para o povo a decisão. Confiem. Não embarquem na ansiedade de não alcançarem o que pretendem.

Serve-se a comunidade em qualquer função. E o poder dos humildes, afinal, é o mais decisivo. O pudor que lhes sobra realiza mais que o poder que (supostamente) lhes falta. Pudurosos ao poder?

João António Pinheiro Teixeira

João António Pinheiro Teixeira

10 fevereiro 2026