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Larachas e outros disparates

O Senhor José, um companheiro na carreira número 45 das 11:30 para a Ponte do Bico aos Domingos, já me tinha dito de que lado estava e de sobre o qual eu concordei logo: que na Natureza só há um que manda. E mesmo no dia da segunda volta da eleição para Presidente da República, a conversa versou o tempo que se fazia, ainda que, por coincidência, não tivesse sido necessário o guarda-chuva. Chegou-se a ver o azul que fazia por cima das nuvens carregadas da véspera e de dias anteriores. Perguntei-lhe se já tinha ido escolher o candidato para o representar no mais alto cargo da nação, respondeu-me que iria mais tarde com a filha, tendo voltado rapidamente à intempérie que se tem feito sentir. Estava preocupado, e não era para menos. Afinal, uma parte do país tinha ficado literalmente destruída, sem que as soluções chegassem. Bem, foram anunciados alguns apoios e uma burocracia estonteante para quem tinha perdido tudo, não tinha electricidade e era incompetente, como eu e ele, nas coisas do ciberespaço. Antes disso, tinha havido um silêncio ensurdecedor das autoridades superiores, mas mais valeu que falassem tarde do que não dissessem nada. Nestas coisas com repercussões gigantescas, um ou dois dias de silêncio tinha sido quase uma eternidade. Quem se vê nelas sente o desamparo e a aflição, e os que não sentem agradecem a feliz sorte de não terem sido fustigados pelo carrossel de tempestades, ainda que lamentem o sucedido e sejam solidários como, felizmente, tem acontecido. O Governo parece ter ficado atordoado com o que se tinha passado e ficou sem fala aquele tempo todo. A ministra da Administração Interna havia de aparecer à cena tarde e a más horas para não dizer nada, para balbuciar algumas palavras quase de quem se sente perdido e não tem soluções. E não tinha. Algumas larachas, mesmo que repetidas, não eram solução nenhuma. Nem havia da parte da responsável vontade para falar. Nem mesmo à- vontade. A coordenação para a operação que se havia de seguir não tinha sido pensada – ninguém tinha avisado que as dificuldades chegariam, nem era suposto. Na Mãe Natureza não há mulher ou homem que mande, ainda que, por causa do pouco ou nenhum poder nestas matérias se tenha que ter sempre montado e organizado um sistema de emergência. Para a catástrofe de que falo, parece não ter havido, embora a meteorologia possa sempre antecipar – e certamente que o fez, já não recordo – a perigosidade dos fenómenos que aconteceram. O discurso, nestas ocasiões, tem sido quase invariável, independentemente do titular da pasta e do governo que estiver em exercício. Todos os anos tem sido a mesma cena na questão dos fogos. Vai chegar o verão, os incendiários vão voltar ao exercício sem que ninguém dê conta e os bombeiros vão andar numa roda viva, exaustos, a expor a própria vida, e se vai prometer que no futuro não volta a acontecer. Quase se poderá adivinhar o que vai ocupar os telejornais durante um ou dois meses seguidos daqui a algum tempo. Se isso é o que acontece com os fogos – alguém conhece a estratégia para o próximo verão? Que medidas foram discutidas e decididas para que, desta próxima vez, o combate esteja facilitado? – como não haveria de acontecer no caso das tempestades? O país não está preparado para fenómenos críticos, nem se tem vindo a preparar. É verdade que, como diz o Senhor José, na Mãe Natureza não há homem nenhum que mande, mas há muito que cada homem possa fazer e entre estes os que têm mesmo o dever de fazer por terem poder delegado e terem jurado na tomada de posse tudo fazer para cumprir as funções que lhes foram confiadas. Não apreciei o aproveitamento que o Governo fez há dias quando o primeiro-ministro afirmou que “nunca o Estado respondeu com esta rapidez […] estamos a esgotar todas as nossas possibilidades”! O Governo não fez mais do que a sua obrigação, por mais que mostre que fez muito. Pelas coisas positivas que faz o povo vai julgá-lo na devida altura, assim como se as não fizer.

Luís Martins

Luís Martins

10 fevereiro 2026