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No colo da Senhora...

 


 

O Matias é um menino sereno, mas de coração inquieto e curioso, desses que fazem perguntas ao céu, quando os adultos já deixaram de perguntar... ou de responder. A mãe, a professora e a catequista conhecem bem essa sua faceta e nutrem por ele um desvelo ímpar. 

- “Este menino é um tesouro”, dizem todas. 

Há uns dias atrás, foi com a mãe à Procissão da Padroeira, a Senhora da Purificação, de quem a catequista Elisabete tinha dito ser a mulher serena e obediente à vontade de Deus, que oferece o Filho ao mundo e medita os acontecimentos em seu coração. 

Nessa tarde, tudo foi para ele novidade: uma Igreja cheia de claridade – até as paredes pareciam feitas de luz! –, onde se respirava música e presença; uma bela e imponente imagem de Nossa Senhora, envolta numa pureza que não se explicava, apenas se sentia e reconhecia, vestida de luz e com uma ternura desmedida no rosto. Ficou marcado com o que viu e sentiu não mais ser o mesmo. A mãe apercebeu-se disso e ficou algo apreensiva, mas resolveu dar tempo ao tempo para perceber melhor o que se passava e ver onde tudo isto iria parar.

Na noite seguinte, o Matias deitou-se com a imagem da Senhora da Purificação na retina, a mesma que vira na Igreja, com o Menino ao colo e um olhar de paz que se estendia pelo templo e parecia atravessar o tempo. Quando adormeceu, o mundo mudou de forma: sonhou que estava de novo na Igreja e que o colo da Senhora estava livre, como sinal de entrega total; que a Senhora sorriu, o olhou com misericórdia e o chamou para junto de Si.

O Matias aproximou-se devagar, com o coração a bater como se fosse uma oração. A Senhora estendeu os braços e, sem nada dizer, colocou-o no lugar onde repousa o Filho eterno. O peso do Matias não era corpo, mas entrega filial, e o colo da Senhora tornava-se um altar. Então, como no Templo de Jerusalém, tudo se encheu de louvor silencioso, o tempo parou e o Matias sentiu um calor profundo, não como o do sol, mas como o de casa. Sem o saber dizer, intuiu que, apesar de pequeno, naquele colo já participava do Mistério maior: ser apresentado, acolhido e devolvido a Deus.

A Senhora, que o sustentava com a mesma fidelidade que usou para o Verbo feito carne, passou-lhe a mão pelos cabelos e, num sussurro mais sentido do que ouvido, disse-lhe:

- “Matias, cada criança carrega um pouco do Meu Filho. Quando sonhas com amor, é Ele que acorda em ti e, quando me amas, é em ti que O vejo”.

Nesse momento, compreendeu algo que, na sua tenra idade, não sabia explicar: não estava a substituir Jesus, mas a ser unido a Ele, como ramo enxertado na videira viva.

Quando acordou, o dia já despontava e a imagem da Senhora da Purificação permanecia no seu coração. Levantou-se com uma certeza serena: quem se entrega nas mãos de Maria aprende a pertencer a Jesus; e também como um desejo irreprimível: subir ao colo da Senhora e sentir, ao vivo, o que experimentou em sonhos. 

Ao longe, o sino da Igreja tocava e o Matias sentiu-se chamado a uma vida diferente: nem mais santo nem mais sábio, mas mais atento e ainda mais sensível. Desde esse dia, sempre que pensava na Senhora da Purificação, sorria por dentro e, em segredo, sabendo que, por um instante, num sonho, também ele tinha sido acolhido naquele colo materno e eterno.

Estando a decorrer por aqueles dias a novena da Padroeira, não se esquecia de, antes de adormecer, rezar à Senhora, como lhe tinha sugerido a sua catequista. E acrescentava à oração o pedido, transformado em anseio, de que o sonho se tornasse realidade.

Quando, passados uns dias, foi à Entronização da Senhora, para o fecho das festas, a Senhora lá estava, com o Menino ao colo. Por um instante, pareceu-lhe que o sonho se repetia. Viu a sua catequista e, sem a mãe se aperceber, correu ao seu encontro. Queria, a todo o custo, contar-lhe o sonho e confidenciar-lhe que o seu maior desejo era que se tornasse realidade. Enternecida, a catequista deu-lhe colo e disse-lhe baixinho que aquele sonho tinha sido uma catequese do coração: que, no dia do batismo, também ele tinha sido levado ao templo, apresentado a Deus e acolhido no amor de Maria; que, ao acolhê-lo no lugar de Jesus, Maria lhe mostrava que cada cristão é chamado a viver unido a Jesus, tornando-se filho no Filho. 

Certo de tudo isso, o Matias, porém, não saía da Igreja enquanto Jesus não descesse do colo de sua Mãe... queria subir lá para ocupar o seu lugar. Aflita à sua procura, como Maria no Templo, a mãe encontrou-o no colo da catequista e reparou que o olhar do Matias nem por um instante se desviava da imagem da Senhora da Purificação.

- “Filho, teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura” disse a mãe, suspirando de alívio.

- “Mãe, não vou daqui embora sem subir ao colo da Senhora”, respondeu o Matias.

Depois de uma longa conversa com a mãe e a catequista, o Matias compreendeu que Jesus continua a ser apresentado ao mundo em cada vida que se entrega a Deus; que ser amado também é uma responsabilidade; que o Filho é reconhecido sempre que alguém se deixa amar e conduzir; que quem se entrega nas mãos de Maria aprende a pertencer a Jesus.

E, desde esse dia, sempre que ouvia falar da Senhora da Purificação, lembrava-se de uma verdade tão simples quanto importante: quem se deixa conduzir por Maria aprende a viver como Jesus e, por onde quer que ande, está sempre no colo da Senhora.


 

* Professor na Faculdade de Teologia – Braga e Pároco de Prado (Santa Maria)

Pe. João Alberto Sousa Correia

Pe. João Alberto Sousa Correia

9 fevereiro 2026