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Em busca de uma teologia dos carismas…para a sinodalidade

 

 

Talvez seja a palavra mais usada (e menos entendida) nos últimos tempos no contexto da Igreja católica – sinodalidade. Já se realizaram dois momentos (sessões) de sínodo dos Bispos, em Roma, sobre o tema – 2023 e 2024. Saiu, em outubro de 2024, um documento final com o título – ‘Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação, missão’. Ao nível das dioceses – em cuja fase se encontra agora a caminhada sinodal – têm sido feitas reuniões, encontros e experiências retorquindo o que foi feito em Roma… e mesmo ao nível nacional, regularmente, tem havido encontros para colocar todos o mais possível ao mesmo ritmo…

 

1. Mesmo explicando a palavra ‘sínodo’ como ‘caminho comum’ ou ‘caminho em comum’, torna-se um tanto complexo – para boa parte dos fiéis, tantos eclesiásticos como leigos – conjugar a sinodalidade como expressão de vida eclesial. Como se diz no documento final do Sínodo: «o caminho sinodal está a pôr em prática aquilo que o Concílio ensinou sobre a Igreja como Mistério e Povo de Deus, chamamento à santidade através de uma conversão contínua que vem da escuta do Evangelho. Neste sentido, constitui um ato de ulterior receção do Concílio, prolongando a sua inspiração e relançando a sua força profética para o mundo de hoje» (n.º 5). Nota-se o esforço da Igreja em colocar-se novamente na escuta daquilo que o Espírito diz às Igrejas, ontem como hoje. 

 

2. Há questões que se colocam hoje que não foram totalmente resolvidas nos mais de sessenta anos após o

Concílio Vaticano II e não só em aspetos de organização da Igreja, mas também em aspetos de ordem

teológica, particularmente na teologia dos carismas (pneumatologia e dinâmica dos ministérios na Igreja),

tendo em conta vivências eclesiais posteriores ao próprio Concílio. Com efeito, ‘movimentos eclesiais’ como o Renovamento Carismático e outros, que emergiram na sequência do Concílio Vaticano II foram fazendo um aprofundamento teológico dos ‘fenómenos’ relatados nos Atos dos Apóstolos e referidos nas cartas paulinas, que deixaram de fazer dessas manifestações carismáticas algo como peças de arqueologia religiosa, mas antes vivências de tantas pessoas – clérigos e leigos, religiosos ou menos entronizados às coisas bíblicas – no contexto dos seus grupos, comunidades e paróquias.

 

3. De facto, vimos que os trabalhos sinodais – depois replicados nos tempos de aprofundamento nacionais e

diocesanos – deram-nos uma imagem diferente da habitual: já não em anfiteatro e com comunicações de

púlpito, mas em mesas-redondas com poucos elementos em cada grupo, pondo todos (teoricamente) em igualdade de circunstância, senão na palavra ao menos na pretensão de parecer querer dar voz…Será que isso significa e revela mudança de paradigma: da visão piramidal para uma certa vivência de comunhão? Será que tal modo de estar não poderá ter criado a impressão de que quem desceu perde poder e de que quem foi igualado cresceu (mesmo) na consciência.

 

4. Num artigo publicado na revista ‘Settimana news’, de um de outubro de 2024, o teólogo italiano Severino Dianich, num artigo intitulado: ‘O sínodo, os ministérios e os carismas’ referia que no ‘Instrumentum laboris’ para a assembleia sinodal de 2023, o termo ‘ministério’ aparecia 14 vezes e apenas 8 vezes o termo ‘carisma’. Já no IL da sessão de 2024, ‘ministério’ aparece 70 vezes e ‘carisma’ 27 vezes...

Mesmo que sucintamente citamos textos do magistério da Igreja sobre os carismas:

* «Espírito Santo não só santifica e conduz o Povo de Deus por meio dos sacramentos e ministérios e o adorna com virtudes, mas «distribuindo a cada um os seus dons como lhe apraz» (1 Cor. 12,11), distribui também graças especiais entre os fiéis de todas as classes, as quais os tornam aptos e dispostos a tomar diversas obras e encargos, proveitosos para a renovação e cada vez mais ampla edificação da Igreja, segundo aquelas palavras: «a cada qual se concede a manifestação do Espírito em ordem ao bem comum» (1 Cor. 12,7)» (Lumen gentium, n.º 12)

* «Extraordinários ou simples e humildes, os carismas são graças do Espírito Santo que, direta ou indiretamente, têm uma utilidade eclesial, ordenados como são para a edificação da Igreja, o bem dos homens e as necessidades do mundo» (Catecismo da Igreja Católica, n.º 799).

Voltaremos ao assunto, brevemente…

 


 

António Sílvio Couto

António Sílvio Couto

9 fevereiro 2026