Em dia de Portugal ir a votos escolher o próximo Presidente da República e com meio país afogado em água, sempre à espera do pior, o mínimo que se pode esperar é que a resiliência seja a mãe de todas as vontades e que, com mais ou menos dificuldades, todos possamos cumprir o nosso dever e direito de nos deslocarmos às urnas. Importa, contudo, neste dia de tempestade, a que deram o nome de Marta, refletir porque continua a ser tão difícil agir num país que se tornou solidário na reação às catástrofes, continuando a ter dificuldades que, em tempo de alterações climáticas profundas, exigiria, uma atitude distinta: uma governação preditiva. Infelizmente, em Portugal, não existe uma adoção formal, explícita e integrada de um modelo de gestão de risco com aquelas características. Já não nos basta ter empresários avessos ao risco; temos um país governado, independentemente por quem, avesso a uma visão distinta que leve em linha de conta que probabilidade, plausibilidade e possibilidade deviam fazer parte do dicionário da classe política e dos agentes – em toda a linha – da proteção civil por duas razões: imprevisibilidade radical e disrupção sistémica e que esta última deixou de ser episódica para passar a ser sistémica. Infelizmente, a última década foi pródiga em exemplos que poderiam ajudar os decisores a saber trabalhar por antecipação. É verdade, reconheça-se, que em Portugal existem fragmentos, práticas parciais e aproximações a este modelo, mas de forma incoerente. Temos um sistema de avisos meteorológicos (IPMA e ANEPC), planos de emergência, estados de alerta com graduação e cadeias de comando, nas não temos a predição como função autónoma, uma leitura sistemática de sinais fracos, uma decisão institucional antes do alerta e sobretudo uma integração formal de cultura de risco como política pública. O atual modelo português é, em todo o caso, com raras exceções, igual ao adotado na maioria dos países europeus: essencialmente reativo-confirmatório por validação técnica do risco, acionando o gatilho psicológico da ação. Quem consegue monitorizar tendências, tomar decisões antecipadas de forma discreta, comunicar de forma clara, concreta e concisa e assimilar esta aprendizagem, tem tendência a não sistematizar o conhecimento adquirido por escrito, tornando a experiência irreplicável, morrendo, assim, com quem sai, da cadeia de comando. Por outro lado, apesar de alguns sinais pontuais, continuamos a ser mais intuitivos, reagimos coletivamente bem aos alertas, mas mal à antecipação, confundimos prudência com exagero, confiamos mais na ordem do que nos sinais, acabando por empurrar decisores para o que se pode classificar como inação precoce. Como escrevi, a situação portuguesa não é muito distinta da realidade no resto da Europa. As exceções, próximas de modelos reais como aquele que aqui defendo, são possíveis de encontrar na gestão de cheias, nos Países Baixos, na resiliência local, na Escandinávia e em algumas cidades alemães. Mesmo nesses casos, existe pouca clareza política, pouca proteção do decisor e falta de centralidade da cultura de risco. Não se trata, assim, de importar modelos, mas de aprender com as nossas características intrínsecas, com o nosso conhecimento técnico e a realidade no terreno para termos um modelo que poderá ser um exemplo para os outros, mas sobretudo, uma salvaguarda de vidas e bens e isso pode ser conseguido com humildade e, sobretudo, com uma revisão, das estratégias mais recentes (como a Estratégia Nacional de Proteção Civil Preventiva 2030) capazes de promoverem a minimização do risco e a preparação atempada do pais.