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Os temporais destes últimos dias

Ninguém, decerto, deixou de se sentir emocionado, com as ocorrências devidas aos temporais violentíssimos, que aconteceram no nosso país, nestes dias finais do mês de Janeiro.


 

Foram situações de pânico e de dor pelo que aconteceu, quer a nível material, quer a nível humano. Tanta destruição e perdas de vidas não são normais, felizmente. Por essa razão aquilo que a rádio e a televisão nos transmitiram, além dos outros meios de comunicação, foi vivido por todos nós com um sentido de dor e de estupefacção.


 

Certamente que deveremos realçar, sobretudo, aqueles lugares onde os prejuízos foram mais fortes, como Leiria e Figueira da Foz, mas todo o país se lamentou do que aconteceu e sofreu fraternalmente com o que sucedeu.


 

Recordo de me contarem uma situação semelhante ocorrida há muitos anos, no princípio da minha infância. Ouvi várias vezes as pessoas que viveram esses factos como adultas. Já não se encontram entre nós, mas o que presenciei nestes dias lembrou-me o modo emocionado com que descreviam as situações. Esses mesmos relatos – que já me escapavam da memória – logo os recordei, quando lia o jornal ou via o ecrã televisivo. Efectivamente, tais situações são muito raras, ou melhor, não sucedem na nossa vida com tanta frequência, mas é impossível não ficarmos sobressaltados e incomodados, ao vermos tantos estragos num lugar de vida habitual de muitas pessoas, nos prejuízos tremendos que causaram e, sobretudo, por tomarmos consciência de que houve vítimas mortais, que se despediram da nossa presença duma forma dramática e violenta, sem conseguirem evitar a morte.


 

Várias pessoas me perguntaram, ao notarem a minha condição de sacerdote, enquanto seguia o meu caminho habitual no centro da cidade, o que seria possível fazer pelo bem dos nossos cidadãos que morreram. Respondi-lhes – não sei de todo se eram seguidoras de alguma crença religiosa – que, da minha parte, procuraria encomendar a sua alma a Deus e rezar por elas. Não me pareceram muito convencidas com a resposta que lhes dei, como se me quisessem dizer: “Isso o que adianta?” 


 

Decerto que a minha condição sacerdotal e a minha fé não poderiam dar uma resposta diferente. Como atrás salientei, não tive oportunidade de falar muito mais com quem me interpelou, mas notava que procuravam encontrar em mim alguma solução para o que sucedeu. Uma delas, inclusivamente, depois de me interrogar e ouvir o que lhe respondi, afastou-se rapidamente, deu alguns passos vigorosos e rápidos, mas voltou atrás e perguntou-me: “Mas isso não faz com que os que morreram voltem para junto de nós...?”. Dei-lhe o meu acordo e expliquei-lhe que não via outra solução mais apropriada para tratar dos que se foram desta vida como consequência do temporal. Olhou-me com certa desconfiança, mas acabou por observar: “Vou pensar nisso...” E desapareceu rapidamente...

 

Mas voltou de novo, dizendo: “Não sei se o senhor padre tem razão, mas, pelo menos, deu-me uma resposta... É tudo tão doloroso...” E lá se foi outra vez, sumindo-se no meio de muita gente que, naquela hora matutina, ia certamente a caminho do seu emprego.

P. Rui Rosas da Silva

P. Rui Rosas da Silva

3 fevereiro 2026