A crise nos partidos tradicionais portugueses não é de agora. As legislativas de 2025 deram um grande contributo, sobretudo, na direita do espectro político, com estragos significativos. À esquerda já tinha acontecido quase uma década antes. Com as presidenciais de 18 de Janeiro último os estilhaços na direita serão, com toda a certeza, ainda maiores. Luís Montenegro pensou nele próprio e absteve-se de tentar consertar o movimento inexorável em curso.
Seria incorrecto fazer uma transposição directa dos resultados das eleições presidenciais para actualizar as preferências partidárias dos eleitores em eventuais eleições legislativas. Mas, que marcam uma certa tendência, disso parece não haver dúvida. Se houve candidatos mais independentes com potencial ganhador, casos de António José Seguro e Henrique Gouveia e Melo, houve outros que foram candidatos tipicamente partidários, tenham sido os próprios a anunciar as suas candidaturas ou sido anunciados pelas estruturas partidárias. As consequências aparecerão mais cedo do que tarde.
António José Seguro, que acabou por ser apoiado pelo Partido Socialista, tarde e a más horas, e a contragosto de uma facção significativa dentro do partido, será com grande probabilidade, a atender às sondagens disponíveis, o próximo Presidente da República. Pelo seu mérito e não tanto pela ajuda interesseira que chegou depois. A verificar-se, tal acabará por ajudar o Partido Socialista a recuperar das perdas e feridas sofridas nas últimas legislativas.
A iniciativa Liberal vai seguramente beneficiar com os resultados da candidatura de Cotrim de Figueiredo, que ficou num lugar honroso, ainda que não tenha chegado à segunda volta. O Chega capitalizará, igualmente, com a segunda posição da candidatura de André Ventura e de este ter chegado à fase final, ainda que, como é previsível, não ganhe.
Os partidos mais pequenos com candidato podem ter sido quase irrelevantes, ao alcançarem votações residuais, mas tal se ficou a dever ao voto útil no candidato da esquerda com possibilidade de ir à segunda volta e voltarão naturalmente, quando houver legislativas, aos scores dos anteriores actos eleitorais.
Como referi há duas semanas atrás, quando se sabia já dos resultados provisórios das eleições em apreço, Luís Montenegro foi o grande e único perdedor, ainda que não tenha sido candidato. Com ele, perdeu o partido que lidera, na verdade, não apenas porque o seu candidato ficou no modesto quinto lugar, o último do grupo dos designados presidenciáveis, mas porque se antevê que o Partido Social Democrata tenha perdido votos não apenas para os candidatos mais independentes que enunciei acima, mas também para a Iniciativa Liberal e o Chega. Ainda que nem todos os que votaram nestes candidatos mantenham a sua tendência de voto, no futuro, nos partidos a que os candidatos estavam conectados, alguns sempre passarão a manter a sua mais recente predilecção. Pode acontecer que o partido que hoje é governo venha a ser ultrapassado pela direita. Essa possibilidade já foi mais longínqua do que parece ser agora. O fenómeno que começou na esquerda não teve, nem terá, as repercussões que podem vir a acontecer à direita.
Por cá também há autocratas em chefe partidários. Têm sido eles os causadores do que está a acontecer. Não leram a história. Não quiseram saber dela. Preferiram antes criar uma em que fossem protagonistas, porque sim, alimentando a esperança de ficarem falados. E os correligionários acompanharam-nos nas suas derivas. Afinal, eram momentos de glória – sabemos que efémeros –, porquê estragar a festa? Só que a festa não dura sempre, e logo que começam a detectar-se falhas e incongruências acontece a debandada. Se as pessoas se revissem nos seus líderes partidários, se estes continuassem a merecer a confiança dos seguidores, os mesmos não debandavam. Não é o que está a acontecer.