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Anti-imigração num velho país de diáspora ou a eterna verdade do ‘não sirvas a quem serviu’

Dedico-me ao estudo da imigração em Portugal há mais de duas décadas. No início do século, davam-se os primeiros passos no estudo do perfil de Portugal como país de Imigração. Andávamos espantados connosco, com a nossa capacidade de atrair mão de obra não apenas lusófona, mas também de geografias que nos pareciam distantes e desconhecidas. Países como a Irlanda, também a dar os primeiros passos como país recetor, olhavam-nos como um extraordinário caso de estudo. 

Portugal apresentava uma maturidade política na abordagem legislativa ao fenómeno imigratório que lhe vinha da sua própria experiência de vida coletiva. Não queríamos cometer os erros dos outros. Em novecentos anos de História tivéramos tempo para sermos tudo: para sermos grandes e gloriosos no Mundo e para sermos os serventes e as criadas domésticas na Europa reconstruída do pós-II Guerra. Por isso, sabíamos que não queríamos modelos pseudo-universalistas a disfarçar bafios coloniais assimilacionistas, como o modelo francês. Não queríamos modelos étnicos, baseados na ideia da identidade pura, altamente exclusora de imigrantes, como o modelo alemão que ao fim de quase quatro décadas de imigração laboral, a crescer às custas dos gastarbeiter (trabalhadores convidados) ainda insistia em vê-los como temporários, que deveriam voltar para as suas terras. Também não queríamos modelos multiculturalistas de falsa inclusão, que apenas alimentavam coexistências de comunidades que mal se conheciam entre si, gerando guetização e desconfianças mútuas (que haveriam de sair bem caras no início deste século), como no Reino Unido ou nos Países Baixos. Queríamos um modelo de inclusão que reconhecesse a riqueza social, económica, mas também cultural que cada imigrante pode trazer à nossa identidade. A Lei da Nacionalidade (Lei Orgânica 2/2006 que consistiu numa alteração profunda à Lei 37/81) emergia neste contexto como expressão dessa consciência sobre a nossa própria identidade. Identidade velha, feita de muitos rostos, de muitas andanças. 

A nossa experiência dizia-nos que os imigrantes tendem a ficar nas sociedades de acolhimento, tal como milhões de portugueses e seus descendentes acabaram por ficar em tantos países, formando uma das maiores Diásporas do mundo. A nossa experiência dizia-nos que é maior o ganho quando temos o rasgo, a coragem, a humanidade, de incluir os imigrantes na nossa vida coletiva, de modo positivo e duradouro. 

Isto explica porque fomos capazes de criar ao longo de três décadas um património institucional, jurídico e político para a inclusão dos imigrantes, que se tornou simultaneamente num capital ético e humanista que nos granjeou reputação internacional. 

Mas esse património está em vias de extinção. A soberba (não sirvas a quem serviu), de mão dada com ignorância, desinformação e uma certa tacanhez de espírito que, admitamos, nunca abandonou parte da nossa sociedade, leva muitos a considerar que o país está inundado de imigrantes que não vêm para trabalhar, mas para viver de subsídios e minar a nossa identidade. 

Houve tempos em que a expressão ‘contra factos não há argumentos’ era inquestionável. Assim, à luz dos factos, o mito do imigrante que vem buscar subsídios facilmente cairia por terra: em 2025, os imigrantes contribuíram com 4,1 mil milhões de euros para a Segurança Social, recebendo em prestações sociais cerca de 811 milhões. Facto: pagaram cerca de 5 vezes mais do que aquilo que receberam. Todavia, o à-vontade com que se cultiva a ignorância e se abraçam ‘factos alternativos´ (na célebre expressão cunhada pelo primeiro mandato de Trump) atinge tal magnitude que hoje os factos de pouco servem. 

A realidade passou a ser uma espécie de narrativa caprichosa que se refaz à velocidade dos tik-toks e que, como um ácido, corrói 30 anos de património de inclusão dos imigrantes no nosso país.

Neste cenário, importa não desistir. Não desistir de denunciar o culto deliberado da desinformação e da ignorância, dois excrementos que alimentam a instrumentalização ideológica da imigração, que lhe retiram humanidade e que procuram reduzi-la a bode expiatório das nossas incompetências coletivas. Eu não desisto. 

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Isabel Estrada Carvalhais

3 fevereiro 2026