Nunca houve tanta informação como hoje, mas nunca como hoje tanta cacofonia de vozes ensurdecedoras a calarem-se umas às outras num ruído inexcedível a criar uma Babel de línguas, sensibilidades e aporias humanas sociais e políticas.
Mesmo na Igreja existem vozes nem sempre harmoniosas entre os cristãos, embora todos tentando um novo Pentecostes de línguas e linguagens, expressão de diversas culturas mais ou menos modeladas por princípios humanos universais e de mundividências diversificadas.Todos, porém, intentam ser testemunhas do Ressuscitado. Mas, se em muitos a língua é comum, as linguagens são diferentes e diversamente interpretadas. Talvez este seja um dos grandes obstáculos para a transmissão de mensagens ou da Boa Nova entre cristãos: ouvem a mesma mensagem, mas interpretam-na, entendem ou compreendem-na de forma diferente.
Isto tem sido objecto de estudos elaborados de linguistas, filósofos e teólogos. Todos são unânimes em afirmar que “não se pode evangelizar sem evangelizar a cultura”, pelo que se deve discutir os pressupostos da relação fé-culturas, sob risco de se tornar num diálogo de surdos, pois só existe mensagem quando existe relação entre emissor e recetor: Deus comunica a revelação, como um depósito de verdades dogmáticas e morais, que a Igreja recebe, conserva e transmite, de modo a in-formar o mundo, destinatário passivo. Mas na dinâmica histórica, o recetor não é mero destinatário passivo, mas interlocutor ativo, num processo mais longo.
Do concílio Vaticano II herdámos: a consciência de que a revelação acontece na história e como história: a recepção é constitutiva da revelação (DV); há pois uma nova relação de reciprocidade entre Igreja e o mundo contemporâneo (não mais um inimigo a combater ou o corrompido a converter-se): a Igreja dá e recebe, ensina e aprende (DG). Como povo único e orgânico de batizados, todos iguais pelo batismo, todos diferentes em carismas e ministérios,(...) a celebração de todos é mais do que a presidência de alguns (SC).
Por isso importa cultivar um duplo olhar: ao Evangelho (“a doutrina tem carne macia”, palavras do Papa Francisco) e à experiência humana – dois “textos” que se leem, releem e iluminam reciprocamente. O Evangelho não diz / não revela se não for lido/ perscrutado por leitores que são sempre sujeitos existencialmente concretos, e culturalmente situados. (José Frazão SJ).
O Espírito do Ressuscitado dá sinais através dos tempos. Hoje, que sinais dos tempos nos cabe reconhecer nas dinâmicas socioculturais como lugares através dos quais Deus estará a falar à Igreja e, por ela, aos homens?
A atitude mais lógica seria não “condenar” o mundo mas “conversar” com o mundo. Trata-se de um modo de proceder, um caminho não uma construção abstrata. “Conversar” com o mundo, como forma de hospitalidade, faz da identidade cristã um “estilo” praticado, muito mais do que uma identidade declarada, um modo distintivo de habitar o mundo. Uma “evangelização” desqualificada culturalmente não qualifica evangelicamente.
Entre o risco real de irrelevância cultural e a presunção imaginada de ser simplesmente contracultura, a Igreja pode contribuir para qualificar as culturas que partilha, oferecendo traços de uma cultura-outra, levando a compreendermo-nos como parcialidade em múltiplas relações, num espaço público -plural tido como um bem. (Idem ).
Uma voz no meio de tantas em cacofonia ou uma contra as outras, será sempre uma voz integral, holisticamente entendida, num espaço cultural aberto, dinâmico e sempre em transformação e transfiguração, como aliás nos surpreende o pensamento do grande filósofo francês Paul Ricoeur baseado em pressupostos de Heidegger e Gadamer, na transmissão bíblica.
Mais ou menos conservadores, estaremos conscientes desta aporia dialógica?...